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Um problema que não se deveria pôr, a Turquia

1 Amáveis tigres que ronronam sorridentes, pavões e ratos que rugem.
A forma paternalista, permissiva e distraída com que a Comissão e o Parlamento Europeus tratam de certos assuntos é deveras preocupante.

N/D
2 Fev 2005

Referimo-nos a assuntos tão perigosos como a “globalização”; a secessão da Ucrânia e Bielorússia em relação à Rússia; a ameaça comercial chinesa sobre o operariado e pequeno comércio e indústria europeus; os vários “tsunamis” migratórios sobre a Europa que prometem nunca mais ter fim; e a ameaça por parte da Turquia de querer “regressar” à Europa, “entrando” para a Comunidade Europeia, sem ser, como dantes, por arrombamento.

Como se compreenderá, é apenas o temor e respeito por potências como a Turquia, a China, a Índia ou o Paquistão que nos força a prevenir os nossos distraídos compatriotas contra a inconveniência destes grandes países não-europeus serem confundidos com quaisquer insignificantes Ugandas, Nepais ou Guatemalas. Num mundo “globalizado”, onde morar um “bravo” português, terão direito de morar 7 turcos, 130 chineses, 110 hindustânicos, 4 espanhóis, 5 franceses… Tal é a desproporção das populações dos nossos povos e a antiguidade e importância de certas civilizações.

Os pequenos ratinhos, os tranquilos coelhinhos, os vaidosos pavões pensam poder alguma vez falar de alto para os vários tigres asiáticos, a começar pelos nossos “bons vizinhos” turcos. É claro que se enganam redondamente.

2. A Turquia como inimiga histórica da Grécia, Rússia, Áustria, Sérvia e Croácia.

Que “Europa dos burros” seria esta, que não englobaria importantíssimos povos europeus, como a Rússia, a Ucrânia, a Bielorússia? E que ao mesmo tempo englobasse um grande país da Ásia Menor, a Turquia? Só porque o Tratado de Lausana (1923) deixou à Turquia, no continente europeu, um pequeno território roubado à Grécia e à Bulgária, recordação da sua sangrenta agressão colonial de seis séculos ao nosso continente?

A nossa querida e velha Grécia é radical adversária da Turquia (esta última corresponde à antiga Anatólia dos hititas, luvitas, lídios, frígios, cários, isáurios, capadócios, lícios, panfílios e cilícios). Inimiga e rival da Turquia desde pelo menos o tempo da guerra de Tróia, no século XII antes de Cristo. Nos primeiros dois milénios, as coisas correram razoavelmente bem para os helénicos (que colonizaram as próprias costas da Anatólia). Mas com o advento do Islão e posteriormente com a invasão turca que destruiu em 1453 o império (grego) de Bizâncio, o saldo inverteu-se a favor dos turcos, que passaram a dominar o próprio território grego desde cerca de 1450 até 1830-1913 (consoante as regiões).

O Império Turco estendeu-se cruelmente pela Europa adentro desde o século XIV. A Bulgária foi conquistada a partir de 1361-93. A Sérvia entre 1389 (batalha do Campo dos Melros, no Kosovo) e 1459-63 e só se libertou em 1878. O reino da Hungria caiu entre 1526 (batalha de Mohacs) e 1541. O que é hoje a Roménia foi anexado pelos turcos em várias etapas (a Valáquia em 1393; a Moldávia e Bessarábia entre 1484 e 1504; a Transilvânia do “conde Drácula” em 1541).

A própria Ucrânia (ou Rússia do sul) perdeu para os turcos uma área superior à de Portugal, formada pelas províncias perdidas de Jedisan (em 1526, recuperada em 1792) e da Podólia (em 1672, recuperada em 1699).

Os turcos tentaram e falharam o cerco da própria Viena de Áustria por duas vezes (1529 e 1683). No império austríaco formou-se um cordão de vilas e aldeias organizadas contra os turcos (as famosas “fronteiras militares”) o qual passava pela Croácia, Bósnia, Sérvia e Transilvânia.

3. A Bósnia como uma “filial” da Turquia.

Com o esboroamento (provocado) da antiga Jugoslávia (nos anos 90 do século XX) formou-se tragicamente um estado europeu com uma “quase maioria” de 42% de muçulmanos, a Bósnia-Herzegovina. Etnicamente sérvios e croatas, os bosníacos deveriam isso sim, ter o seu território dividido e anexado às duas potências regionais, a Sérvia e a Croácia.

A maléfica Madeleine Albright (aliás, Korbel) quis favorecer a Turquia e fazê-la regressar à Europa desta maneira… E como consequência, a Bósnia é uma das razões pelas quais qualquer futura Federação ou Confederação europeia não poderá ser um Estado confessional cristão.

4. Turquia e a droga.

As Polícias de todos os países do Mundo sabem que a Turquia é, infelizmente, uma placa giratória do grande tráfico de estupefacientes. Está nas grandes rotas que vêm do Oriente, onde se produzem as famosas papoilas, lá para o Afeganistão, Paquistão, Birmânia, Laos e Tailândia. Se a Turquia passasse a não ter fronteira com a Grécia e Bulgária (num hipotético quadro de CE) o controle de entrada de droga na Europa não seria nenhum, pois quem é que sabe o que os turcos deixam ou não deixam passar nos seus esquálidos postos fronteiriços com o Iraque, Irão, Arménia e Geórgia? Em dez anos os maiores milionários da tal “Europa” seriam os traficantes turcos…

5. Cervantes e Camões

Se o grande mestre e pai da nossa Língua, Luís Vaz de Camões (1525-80) perdeu um olho em batalha contra os marroquinos (Ceuta), o pai das Letras espanholas, Miguel de Cervantes Saavedra, perdeu a mão esquerda na batalha naval de Lepanto (1571) e esteve cinco anos preso pelos turcos em Argel (1575-80). Eis aqui um traço comum a unir os povos ibéricos e a atestar o “bom nome” que mouros e turcos sempre tiveram nestas plagas de Espanha e Europa. Aliás, outros heróis nacionais, em países como a Sérvia, a Roménia e a Rússia foram pessoas que combateram o Grão Turco ou até que morreram às suas mãos.

No caso sérvio, falamos do rei Lázaro (m. 1389) e de Karadjordje (m. 1817). No caso romeno, de Vlad Tsepes (ou Drácula, m. 1477). No caso russo, do general Suvorov (1729-1800).

6. Eu prefiro a “Euráfrica” à Eurásia…

Como se viu atrás, seria um grotesco contra-senso admitir a asiática Turquia na Europa. Por causa do número-recorde de inimigos históricos que tem dentro da Europa (e nem falámos da Inglaterra, de Suvla e Galipoli). Pelas diferenças culturais e de religião. Pela luta contra a droga. Pela sua localização geográfica na Ásia. Pelos 70 milhões de “pobres” e de jovens que representa e os quais teríamos de sustentar ou receber. Também porque, apesar de não pertencer, já tem cinco milhões de imigrantes na Europa, sobretudo na Alemanha, calcule-se.

Além de que a sua associação levaria a Europa a fazer fronteira com o fundamentalismo religioso do Irão e Iraque. Se há intelectuais que imprudentissimamente não se oporiam a uma ideia de “Eurásia”, eu confesso que preferiria de longe uma “Euráfrica” ou “Euramérica” sob controlo europeu, bem entendido. Um retorno aos gloriosos tempos dos nossos Impérios Coloniais europeus.

Em novos moldes, é claro. Mas para felicidade de todos, incluindo os não-europeus.

Não penso aliás que isto, a médio prazo, seja uma qualquer utopia. Depende apenas da vontade de cada um…




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