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A necessidade da educação moral e cívica nas escolas

As queixas sucedem-se e aumentam: «os alunos não respeitam ninguém, não têm referências nem valores». Para que, porém, possamos passar da lamentação estéril para a actuação que dê frutos, temos que estar convencidos do que significam realmente os valores.

N/D
2 Fev 2005

«O valor não é aquilo que nós valorizamos, mas aquilo que nos torna valiosos ao atribuir-lhe valor». Assim se exprime José Maria Barrio Mestre, da Universidade Complutense, de Madrid, em artigo de 20 de Janeiro na revista “Alfa m Ómega” e que tentaremos resumir.
Se os valores são subjectivizados, acabam por ser neutralizados. E a mentalidade neutralista impede que se diga qualquer coisa séria sobre questões que nunca deixam o homem indiferente. E foi precisamente este neutralismo axiológico ou indiferença quanto à importância dos valores que fez com que fossem sendo afastadas do ensino escolar as questões acerca do sentido da existência humana, as questões que podem satisfazer as principais inquietudes que a todos nos afectam.

A tolerância – «pensa e faz o que te apeteça, desde que sejas tolerante» – aparece para muitos educadores como o valor fundamental, senão mesmo o único. Todavia, o que revelam as análises mais sérias é que os jovens que caem nas redes da intolerância são, na sua maioria, aqueles que não ouviram falar de outra coisa do que de tolerância, mas que carecem de qualquer ideia clara sobre algo importante.

No ambiente social e cultural de hoje, muitos jovens não ouviram na escola – e por vezes nem sequer ouvem em casa e na família – quase nada acerca do que é bem e do que é mal.

Acresce que muitos pensam que a ética é uma questão de sentimentos pessoais, algo sobre o qual não é permitido argumentar com razões, pelo que a opção pessoal no campo dos valores reduz-se a uma questão de gosto. Sucede, porém, que aquilo que a sua própria natureza pede a um adolescente é que se encha de ideais de grande envergadura humana. Se não se satisfaz a sua constitutiva inquietação, o mais provável é que se revolte de forma pervertida ou violenta.

É a consequência lógica de quem, negando que se possam aduzir razões para ter preferências razoáveis – argumentáveis – coloca como fonte dos seus valores, não a liberdade responsável, mas o próprio capricho. Ora os adolescentes fogem instintivamente de tudo o que é falso ou postiço, e o valor da tolerância não enche as suas ânsias, se não se fundar sobre algo muito mais sólido.

Urge que os educadores tomem boa nota de todos os dados do processo.

Fundamentalmente, por duas razões: a primeira, porque o contexto da educação do século XXI é o de uma sociedade massivamente globalizada e multicultural, facto que exige uma promoção séria dos valores do respeito e da tolerância. Além disso, estes valores não poderão desenvolver-se senão na base de um autêntico diálogo intercultural, em busca das formas de vida que melhor contribuam para a plenitude pessoal.

Em segundo lugar, o nosso sistema educativo ajuda muito pouco a colocar essas inquietudes fundamentais que se revelam com especial dramatismo na juventude. Se, nessa idade, não entram os educadores – os pais e os professores – nas questões de fundo, serão outros os que entram, mas não será, talvez, com a intenção e o firme propósito de procurar o melhor para os jovens.

A reforma do sistema educativo, cujo estrepitoso fracasso é impossível ocultar, deveria inquietar seriamente todos os educadores e responsáveis. A ingenuidade de pensar que o melhor que se pode fazer para formar bons cidadãos é adaptar as novas gerações às exigências do mercado e da sociedade industrializada, não leva ao essencial. E também não se presta o melhor serviço pensando que temos de preparar os jovens apenas para que sejam eficazes consumidores de mensagens comerciais ou eleitorais, garantindo, assim, a estabilidade do sistema.

Além de pouco realista, não é o melhor serviço que se presta aos jovens, principalmente quando isso vai em detrimento daquilo que mais os humaniza. É muito bom que aprendam coisas úteis e práticas, mas não à custa dos conteúdos humanos e axiológicos que os ajudam a ser mais, e não apenas a ter mais.

Não é em vão que os mais lúcidos pedem uma maior e melhor presença das Humanidades nos planos de estudo. Depois de tanto navegar pelas águas procelosas do neutralismo, do laxismo e do relativismo, com a excusa da emancipação, da tolerância e da não directividade, é de esperar que não tarde demais a volta do bom senso.

O afã de tantos por «não impor nada a ninguém» levou a que várias gerações de jovens não tenham tido a oportunidade de ouvir algo sério sobre o que é importante. E como o ser humano não pode viver sem formar para si critérios acerca do moral, do social, do religioso, a questão sobre o sentido da existência, muitos recorreram ao que se diz nas televisões, nos filmes de moda, nas organizações radicais ou nas seitas para tentar obter respostas. Só que saem defraudados de tal tentativa.

O grande desafio sociocultural dos nossos dias é que a jovem geração possa contar, precisamente nos anos mais sensíveis do seu processo maturativo pessoal, com referências axiológicas e de sentido, tanto na família como na escola. O futuro da Europa depende muito da maneira como vencer ou não tal desafio.




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