Fotografia:
Freitas ambidestro

Nesta turbulenta época de campanha eleitoral, surgem sempre episódios hilariantes de personagens da vida política portuguesa que resolvem dar um tom cómico a estes tempos em que se trava mais uma batalha rumo ao governo de Portugal.

N/D
1 Fev 2005

Ora neste caso concreto foi Freitas do Amaral, fundador do CDS, que veio à praça pública protagonizar mais uns lamentáveis momentos que em nada engrandecem a já pouco popular vivência política portuguesa. Se há quem diga que os políticos portugueses não são honestos, que as suas promessas não passam à prática, que apenas querem o poder pelo poder, Freitas demonstrou que estas premissas até se aplicam a alguns políticos.
Eis que uma personagem de tal relevo na vida democrática portuguesa se expõe desta forma, demonstrando uma mediocridade intelectual no que respeita aos valores, aos princípios, à ambição desmedida por eventuais cargos de importância primordial na estrutura política e social do país, à própria concepção política no que diz respeito à ideologia.

É de facto incrível que um fundador da democracia em Portugal, que lutou contra o socialismo, contra Soares, que deu a cara pelos ideais do centro direita, que esteve ao lado de personalidades tão marcantes como Adelino Amaro da Costa, Francisco Sá Carneiro ou mesmo Pinto Balsemão na governação de Portugal, venha hoje defender tudo aquilo contra que lutou, abdicando daquilo que de mais precioso o ser humano tem: a dignidade, a espinha dorsal que nos faz homens e mulheres de convicção, com princípios e crentes nas nossas lutas.

Mais do que qualquer outro aspecto, Freitas mostrou estar completamente fascinado pela possibilidade de ocupar o mais alto cargo no sistema político português, não olhando a meios para atingir os fins, colocando de parte tudo aquilo porque lutou e descredibilizando todas as acções e batalhas políticas em que se envolveu. Aqueles que noutros tempos estiveram incondicionalmente ao lado de Freitas do Amaral, devem hoje sentir a revolta de quem foi enganado, de quem foi traído e de quem lutou por alguém que se revelou infiel para consigo mesmo e para com os outros.

Na história do CDS, o seu papel está lá bem patente, porque a história não se apaga e serve para ensinar e encaminhar as gerações vindouras, que terão em Freitas do Amaral o exemplo daquilo que não deve ser o percurso político de um homem que queira andar na rua de cabeça erguida, que seja fiel aos seus princípios e que veja no poder um instrumento de contribuir para o crescimento e engrandecimento do país e não um mero meio para alimentar o ego desmedido típico de certos seres.

Para o Partido Socialista, esta “contratação” de ultima hora não se revelará certamente eficaz, porque o povo não é cego e percebe aquilo que se passa à sua volta. Um homem que foi fundador e Presidente do CDS, em 2002 pediu a maioria para o PSD e em 2005 pede o mesmo mas desta feita para o PS, não é digno da confiança dos portugueses, nem como mero apoiante nem, quem sabe no futuro, como candidato seja ao que for.

O seu percurso sinuoso, sempre ao sabor dos ventos que lhe parecem ser de vitória é, só por si, denunciador da desonestidade intelectual e da incoerência do seu pensamento, pelo que nunca se saberá de que lado está verdadeiramente, a não ser do seu próprio lado. Em 2002 enganou-se quanto à maioria absoluta do PSD, em 2005 enganar-se-á certamente quanto a qualquer vitória do PS.

Cabe aqui lembrar que aquele que agora se mostra escravo das maiorias absolutas protagonizou duas coligações do centro-direita em Portugal, que nessa altura lhe foram úteis para chegar ao círculo do poder… agora parece que melhor lhe servem as maiorias absolutas… amanhã quem sabe não lhe servirá a extrema-esquerda.

O episódio da Caixa Geral de Depósitos é também mais um sinal de que algo não bate certo. Não se pode admitir que um Presidente da Assembleia-geral de uma instituição cujo único accionista é o Estado, nomeado para o cargo pelo próprio Estado, venha emitir um parecer, fruto da sua actividade profissional paralela, que critique a actuação da instituição que tutela a CGD, logo criticando a instituição que também representa. Se isto acontecesse em qualquer empresa, certamente que já não estaria lá, sentado no poleiro.

Aliás, os seus pareceres controversos e, dizem algumas vozes, por vezes contraditórios, já começam a fazer história, pela positiva ou pela negativa, cabe às pessoas sentenciar.

Freitas é aquilo que no futebol se chama jogador ambidestro (joga com os dois pés, para os dois lados), só que no caso concreto com a conotação negativa de quem joga para a direita ou para a esquerda conforme as conveniências.




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