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É preciso mudar a política (II)

A política deve ser um serviço e não uma conquista de poder. Eles foram para lá para servir o povo e não para se servirem a si mesmos. As regras estão invertidas.Trocaram-se os papéis. Mal entram para o poder que lhes foi delegado, tornam-se arrogantes e distantes do povo. É preciso acabar com a inversão de valores na política

N/D
31 Jan 2005

4 É preciso mudar a forma de representatividade política. Quando os eleitos se instalam no poder, o povo, que é o sujeito do poder, transforma-se em mendigo deles. Mendigo que tem de pedir a esmola de ser atendido para falar dos seus problemas, mendigo de bico calado para pagar nas repartições públicas, escravo da burocracia e quantas vezes da arrogância dos funcionários…

Não estou a sugerir que se acabe com tudo, mas que se mude o sentido e a atitude da política. A política deve ser um serviço e não uma conquista de poder. Eles foram para lá para servir o povo e não para se servirem a si mesmos. As regras estão invertidas.

Trocaram-se os papéis. Mal entram para o poder que lhes foi delegado, tornam-se arrogantes e distantes do povo. É preciso acabar com a inversão de valores na política.

Um governo democrático, isto é, um governo do povo, mesmo por representatividade política, tem de estar perto do povo, tem de ouvir o povo, tem de fazer o que é preciso para o bem comum do povo e não para bem deles próprios. É preciso também que os teorizadores do direito abram os olhos e não colaborem com esta inversão de sentido democrático.

5. Porque é que ninguém acredita nos políticos? Por todas estas razões e porque muitos dos que têm estado nesses cargos não têm sabido merecer o crédito de respeito do povo.

O modelo de democracia que temos está pobre de sentido e de participação. Não funciona para o povo, mas para os titulares dos cargos de administração. É preciso mudar as regras da política. E então os que estão na política serão também obrigados a mudar. Políticos competentes, com experiência dada e reconhecida.

6. O que é uma campanha eleitoral? O que devia ser sabemos nós. Mas, o que é? É uma feira de vaidades e um teatro de comadres, é um espectáculo triste e sem sentido em que os actores apelam ao povo para secundar os seus desejos em vez de lhe apresentarem propostas construtivas para resolver os problemas do bem comum.

O povo é apenas espectador destes jogos florais, mas está fora deles. Os donos do teatro e os destinatários da quermesse são os actores, não é o povo, apesar de eles dizerem que pretendem servir o povo.

É assim: vá, meus senhores, votem em mim, porque eu sou o melhor e até vos construo depois mais uma rotunda ou um chafariz ou uma rua ou uma estrada ou arranjo mil empregos…

Votem antes em mim, gritam outros, porque eu proponho candidatos e candidatas, homens e mulheres (como se o povo se importasse com esses jogos de imagem dos partidos que nada adiantam para a solução dos interesses)…

Votem em mim, que eu baixo os impostos… Alguns inventam nomes esquisitos de partidos que funcionam sempre aos pares e em rima, como se isso espelhasse os seus desejos de ir buscar atrás, aos ídolos do passado, aquilo que eles gostaria de ser hoje…

Há outros que até prometem fazer sofrer o povo, para se mostrarem sérios: votem em mim, que eu prometo subir os impostos… Há os barões incorruptíveis da miséria dos outros, os do oito ou oitenta…

Há os que continuam a falar em nome do “nosso” povo, rígidos no seu estruturalismo ideológico, que aponta para uma galáxia fora da nossa… Há de tudo nesta estranha feira de vaidades e teatro partidário de comadres. Só não há é verdadeira campanha eleitoral de projectos políticos.

À falta disso, o povo lá vai pensando em votar na maior ou menor simpatia das caras ou dos clubes partidários, para formar o governo das simpatias e não das competências.

É por isso que os partidos chegaram ao desplante de convidar figuras conhecidas, como actores, desportistas e sei lá que mais para atrair votos. Depois… é o que se vê.

7. Debates nas Rádios e Televisões. Se usassem correctamente os meios de comunicação social para apresentar diagnósticos realistas e sérios dos problemas sociais e propostas para os resolver, nós até batíamos palmas.

Mas não. Só por excepção é que aparece alguém que sabe do que fala. No geral, dizem coisas a despropósito, culpam os adversários, enredam-se na sua miopia ideológica alheia à realidade, falam, falam, sem dizer nada. Não estudam a situação real do país e não sabem apresentar propostas de solução dos problemas.

Há dias, tive a paciência de ver e ouvir um bocado de um debate. Por acaso, um dos candidatos levava trabalho feito, apresentava um diagnóstico quantificado e soluções condizentes com a sua perspectiva de análise dos problemas.

O que se esperava dos outros é que fizessem o mesmo, eventualmente de outro ângulo social, para justificar a sua divergência. Mas não. Ficaram embaraçados, faziam interpretações utópicas, repisavam sempre no mesmo e, quando não tinham mais nada para argumentar, falavam todos ao mesmo tempo e levantavam o tom de voz para ver se impunham os seus pontos de vista…

(continua)




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