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A pedido

A ingratidão é um dos pecados mais frequentes dos Estados e que mais custam a suportar a quem tem de os engolir. E tudo é assim, – os aposentados são cada vez mais pobres -, porque os poderes políticos nunca quiseram fazer a indexaçãodos vencimentos

N/D
31 Jan 2005

Encontram-nos na rua, reconhecem-nos pela fotografia do jornal, pedem licença para nos falar e solicitam-nos que abordemos, este ou aquele assunto.

Como calculam os mais variados. Ficamos com a sensação de que as pessoas julgam que o poder da escrita é um grande poder, e que este poder seja capaz de resolver os problemas sociais mais prementes, ou fazer levantar o muro onde dantes era chão.

E o comentador fica entre dizer-lhes, “meus senhores o que dizemos cai em saco roto, eles já não têm vergonha”, com a evidente desilusão em quem nós confia, ou deixá-los naquele engano do sorriso cúmplice que os tempos, em passando, se encarregarão de desmentir.

A verdade nua e crua é que receamos imenso estas encomendas, primeiro porque não sabemos escrever sem sentir intimamente aquilo sobre que escrevemos e depois porque ficamos imensamente receosos de não ter dado nem a medida, nem as cores carregadas que nos são pedidas.

Não sei o que acontece com aquilo que escrevemos. Às vezes, muito tardiamente, alguém nos dá um lampejo do eco produzido por este ou aquele escrito, mas já tão distante que o som já se não ouve. Um dos pedidos mais frequentes é a miséria em que se encontram alguns aposentados. Alguns, porque outros há que ainda não têm razão de queixa.

Podem vir a ter, mas presentemente não têm. Disseram-nos que há indivíduos aposentados que, no seu tempo exerceram chefias intermédias e hoje ganham menos que a senhora das limpezas do escritório onde já foram chefes. Não são estas senhoras da limpeza que estão bem pagas são aqueles que, por esquecimento e ingratidão dos poderes, se encontram naquela triste situação.

A ingratidão é um dos pecados mais frequentes dos Estados e que mais custam a suportar a quem tem de os engolir. E tudo é assim, – os aposentados são cada vez mais pobres -, porque os poderes políticos nunca quiseram fazer a indexação dos vencimentos.

Uma pequena história, passada há mais de quinze anos: quando exercíamos funções directivas numa associação de professores, esta propôs, por ocasião das reuniões preparató-rias para o Estatuto da Carreira Docente, – diploma publicado em 23 de Abril de 1990 -, que se aumentasse 1 a 2% os descontos para a Caixa Geral de Aposentações, como contrapartida financeira dos encargos a suportar por essa mesma indexação: sempre que a categoria mudasse de índice remuneratório, ao aposentado ser-lhe-ia atribuído o mesmo índice como se estivesse no activo.

Foi-nos dito que não senhor, que não podia ser, que trazia encargos financeiros de grande monta, que mais isto e mais aquilo, apesar de lhes ter sido demonstrado que não haveria encargos para o erário público. Fizeram-se e refizeram-se os cálculos na presença do representante do ministério das finanças que não pôde, ou não quis, nunca dar uma resposta conclusiva.

Se assim tivesse sido, certamente hoje a Caixa Geral de Aposentações estaria em bem melhores condições de tesouraria do que a que está no presente e os aposentados estariam com os seus vencimentos actualizados. Pensamos que o caminho a seguir ainda será o mesmo de há 15 anos, ou seja, ou se aumentam os descontos, – agora não sabemos em quanto -, ou não vai haver reforma para ninguém daqui a pouquíssimo tempo. Custará assim tanto pagar hoje o sossego de amanhã? A reforma chega tão depressa.




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