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Pela imprensa estrangeira

Finalmente vamos para a Palestina e para compreender um pouco o que se está a passar desde as eleições do passado dia 9 de Janeiro até agora e o que poderá pensar-se em relação ao futuro, vamos ver algumas alusões à personalidade de Yasser Arafat no “Journal d’Afrique en Expansion” de Janeiro de 2005: «Yasser Arafat, a incarnação do povo palestiniano.

N/D
30 Jan 2005

Yasser Arafat, o Presidente da Autoridade Palestiniana, morreu em França a 12 de Novembro de 2004. Para muitos africanos este homem, que assistia regularmente às cimeiras da ex-OUA, simbolizava a luta pela liberdade dos povos oprimidos.

Como Moisés, Yasser Arafat não conheceu, como “terra prometida”, um Estado Palestiniano independente.

Os historiadores consagram, sem dúvida, numerosos trabalhos à eficácia política de Yasser Arafat. Mas, sejam quais forem as controvérsias, ninguém negará jamais a importância do seu papel».

O que é a Palestina?

Desde o fim da segunda revolta judaica em 135 da nossa era, o território denominado de Palestina conheceu diferentes senhores (Roma, Omíadas, Abássidas, o Império Otomano) e uma grande amálgama de populações.

A sua actividade económica relativamente importante é baseada, antes de mais, na agricultura e numa indústria nascente e nas peregrinações às cidades santas que são Jerusalém, Belém e Nazaré. A imensa maioria dos habitantes é constituída por árabes, muçulmanos e cristãos.

O povo palestiniano engloba cerca de seis milhões de homens e mulheres dispersos pelo mundo. Há os que vivem em Israel, em Gaza e na Cisjordânia e os que vivem em diversos países do mundo (países árabes, América Latina, nos Estados Unidos, na Europa.

Para melhor esclarecimento poderá ver-se o “Dicionário do Médio Oriente” de Alain Gresh e Dominique Vidal.

A propósito da relação deste povo com o povo de Israel e a propósito da comemoração do fim do Holocausto, comemoração essa ocorrida no passado dia 27, diz Ester Mucznic no Jornal “Público” de 21 de Janeiro: «Esse passado que não passa. Com a agudização do conflito israelo-palestiniano, surge uma nova forma de instrumentalização da memória do Holocausto através da identificação do sionismo ao nazismo, da “nazificação” de Israel e da vitimização do povo palestiniano».

Ricardo Alexandre, na obra “Viver a Intifada”, diz: «O Primeiro-Ministro israelita entende que estas negociações (entre Israel e a Palestina) não devem ser consideradas enquanto tal, de um ponto de vista formal, mas sim como uma tentativa para travar a violência.

Numa entrevista ao “Jerusalém Post” diz que, antes de tudo, deve acabar o terror de todas as formas, não apenas os ataques de morteiro, reafirmando que não haverá negociações debaixo de fogo! Estará a falar mesmo de todas as formas de terror?

Estará mesmo a falar de todo o tipo de fogo? Sem perder tempo, o homem que deu origem à Intifada que agora se vive, acusa o Irão de estar a construir no Líbano uma Base de lançamento de mísseis com capacidade para atingir o centro de Israel.

Pacificar toda esta região é obra desenganada. Em Teerão, ontem, o Ayatollah Kamenei também acusou Israel de exagerar os números do Holocausto para justificar os crimes contra os palestinianos.

Foi numa cimeira árabe de apoio à Intifada, que contou com a presença dos líderes do movimento Jihad Islâmica e Hezbollah, que voltou a ameaçar atacar Israel. Como é habitual nesta terra, a segurança está em máxima força (…)»

Estas considerações fazem-nos lembrar a célebre máxima si vis pacem para bellum (“se queres a paz prepara a guerra”) ou bellum pacis est causa (“a guerra é a causa da paz”).

Resta-nos a consolação, como muitas vezes repetia o meu querido Professor Cassiano Abranches: nihil violentum durat (“nada violento dura sempre”).

Ainda sobre o autor que vimos referindo, «Na Faixa de Gaza sentem-se, de uma forma muito notória, os efeitos políticos e sociais da Intifada, o lançamento popular contra a ocupação israelita: o desemprego atinge quase metade da população activa.

Dois terços dos palestinianos vivem abaixo do limiar da pobreza, de acordo com o Gabinete Central Palestiniano de Estatística divulgado em Abril de 2004».

O mesmo autor termina o seu livro com palavras adequadas à presente situação e que são válidas para muitas outras: «Por entre um emaranhado de dúvidas e inquietações que julgo serem indissociáveis de uma cidadania activa de uma forma de estar no mundo, rejeitando os factos consumados e a acomodação perante a injustiça e a falta de tolerância, continuo a acreditar que a auto-determinação é um direito inalienável dos povos. De todos os povos».

E vamos ver onde vamos chegar perante este curto resumo, desde 9 de Janeiro passado até hoje:

No dia 9 de Janeiro, com a vitória eleitoral de Abu Mazen (Mahamud Abbas) as relações da Palestina com Israel, com os Estados Unidos, aliás, com o mundo, parecem começar a mudar.

Assim, vejamos o que, por exemplo, se diz no “El País” do dia 11 de Janeiro: «O Presidente dos Estados Unidos, George Bush, felicitou ontem publicamente o Presidente eleito palestiniano, Mahamud Abbas (…) e assegurou que lhe telefonará esta semana para convidá-lo a negociar, na Casa Branca».

Nos mesmos termos se referia ao que parecia ser o início de uma nova época o “Faro de Vigo”, também de 11 de Janeiro.

A 12 de Janeiro se refere a esta mesma questão o “El País”, nos seguintes termos: Sharon se compromete a cooperar com o Presidente Abu Mazen. Ambos acordam reunir-se dentro de poucas semanas.

O “Le Monde”, de 13 de Janeiro, dizia: Sharon e Abbas retomam conversações.

O “Frankfurt Algemeine” de 12 de Janeiro desenvolvia o tema das conversações entre os dois povos num artigo subordinado ao título “Sharon fala com Abbas”. Mas, a 15 de Janeiro, fazia alusão à mudança do clima político: «Sharon suspende todo o contacto com Mazen na sequência do assassinato de 6 israelitas».

E, “olho por olho, dente por dente”, os israelitas respondem com o troco da vingança.
Abu Mazen presta juramento referente ao exercício da sua função enquanto que Israel mata 7 palestinianos em Gaza (“Faro de Vigo”, 16 de Janeiro).

O “Faro de Vigo” de 17 de Janeiro dizia: Sharon dá “cartas brancas” ao seu exército para acabar com os ataques palestinianos.

Também nestes termos se refere o “El País” de 17 de Janeiro à situação originada pela morte dos 6 israelitas.

O “Herald Tribune” de 17 de Janeiro dizia: «Sharon comunicou ao seu gabinete que os militares deviam agir “sem restrições”».

O “La Vanguardia”, de 17 de Janeiro, referia: «A OLP pede que não se ataque Israel. Ariel Sharon autoriza que o exército israelita actue “sem restrição” em Gaza».

Perante esta situação e face ao esforço de Abu Mazen que procurou criar as condições para reatar o diálogo, as coisas começaram outra vez a querer endireitar-se. Assim disse o “El País” de 23 de Janeiro: «Três grupos aceitaram uma trégua com Israel. A operação de pacificação de Abbas não inclui ainda o Hamas e a Jihad Islâmica».

Vamos ver o que irá acontecer. Mas, agora, a nossa atenção, a atenção do mundo inteiro vai voltar-se para o que irá acontecer hoje no Iraque e nos dias que vão seguir-se. Aliás, a sorte destes povos tem estreitas interligações.

Noan Chomski em “Iraque, Assalto ao Médio Oriente” diz, referindo-se às perspectivas do Médio Oriente: «Há várias áreas de violência contínua e grave – três em particular – que vou referir. Uma é Israel e a Palestina. A segunda é o Iraque – tanto as sanções como os bombardeamentos».

Curiosamente, a capa do último número da revista americana “Time” diz: «Preparados ou não. Não obstante a campanha de terror, as eleiçoes nacionais do Iraque vão chegar. Terá a democracia uma chance?»

A ver iremos.

É assim que no “Le Monde” de 27 de Janeiro se refere: «O Iraque em guerra nas vésperas de eleições de alto risco».

No mesmo jornal e a propósito da Palestina se diz: «Ariel Sharon anuncia o recomeço dos contactos com a Palestina».

Domingo, se formos vivos, falaremos.




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