Fotografia:
O Bem e o Mal depois de Auschwitz

Falar de Auschwitz é, desde logo, falar do Mal. E é por isso que muitos dos textos que, por estes dias, se têm vindo a escrever sobre mais um aniversário da libertação do campo de extermínio nazi falam de um Mal, grafado com maiúscula, que, sessenta anos depois, permanece de muito difícil ou de impossível entendimento.

N/D
30 Jan 2005

Nenhum adjectivo cumpre, pois, integralmente, a sua função quando colocado ao lado do Mal que Auschwitz representa, o que não significa que não se possa e se deva falar de um “Mal absoluto”, de um “Mal radical” ou de um “puro Mal” a propósito de uma operação industrial de eliminação de seres humanos.
“Quem, depois de Auschwitz, pode ainda duvidar que o Mal existe?”, perguntava na terça-feira passada o chanceler alemão Gerhard Schröder.

“Tudo se pode resumir assim: nós descobrimos o Mal absoluto”, dizia, há dez anos, Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, ao escritor Jorge Semprun, durante uma conversa entre ambos que o canal de televisão “ARTE” transmitiu e que foi reproduzida em Se taire est impossible (Paris: Éditions Mille et une nuits, 1995).

O diálogo serviu para evocar a estadia de ambos em campos de concentração nazi. “Descobrimos o Mal absoluto, mas não o Bem absoluto”, prosseguiu Wiesel, que perguntou o que deveria ser feito para ensinar aos jovens que, apesar de tudo, é próprio do homem ter sede de um absoluto que se cumpre no Bem e não no Mal.

Ainda assim, acrescentava Semprun, “O Mal absoluto pode-se encontrar. O Bem é difícil de encontrar. O Bem ou o caminho para o Bem”.

Durante a conversa, tida por ocasião do quinquagésimo aniversário da vitória sobre o nazismo – “uma vitória que não é a vitória sobre o sistema totalitário completo porque ele continuou na União Soviética durante muito tempo”, observou Jorge Semprun -, os dois sobreviventes da Shoah discutiram sobre se se devia ou não comparar o que se passou em Auschwitz com o que, depois, ocorreu noutros locais.

Wiesel foi muito peremptório, sustentando que qualquer comparação não deve ser feita. Houve talvez mais mortos no goulag de Kolyma do que em Auschwitz, “mas não é a mesma coisa”, diz Semprun, que julga que a singularidade excepcional do extermínio do povo judeu torna diferente as várias experiências concentracionárias.

“O Mal sobreviveu a Auschwitz”, diz o Nobel da Paz. Depois do fim do regime nazi, prosseguiu, contudo, o fanatismo, “que continua um pouco por todo o lado”. E o mais feroz ódio racial tem recaídas violentíssimas como se tem visto, por exemplo, no Ruanda. A História parece incapaz de dar lições. “E se Auschwitz e Buchenwald não mudaram o homem, então o que é que o conseguirá mudar?”, questiona Elie Wiesel.

A conversa regressa ao tema do bem e do mal. A descoberta da liberdade humana, de uma liberdade capaz de fazer o Bem e o Mal é, para Semprun, o aspecto central da experiência dos campos de concentração.

Alguns anos antes, o autor de A Escrita ou a Vida tinha falado sobre o mal em Paris, na Sorbonne – a intervenção pode ser lida em Mal et Modernité (Paris: Seuil, 1997) – inspirado na noção de “mal radical”, formulada, em 1940, pelo escritor austríaco Hermann Broch.

“A alusão de Hermann Broch ao ‘mal radical’ para o qual se voltam as ditaduras mais não é do que um modo de sublinhar a necessidade de introduzir uma dimensão moral na prática social”, afirmou Semprun.

Para este escritor, que foi ministro da Cultura num governo socialista espanhol, “se o mal tem o seu fundamento no fundo constitutivo da liberdade humana, o mesmo sucede com o bem. O mal não é nem o resultado nem o resíduo da animalidade do homem: ele é um fenómeno espiritual, consubstancial à humanidade do homem.

Mas o bem também o é. E se está fora de questão extirpar do ser humano a livre disposição para o mal, se é impossível fabricar o homem novo a não ser sob a forma de cadáver, é também impossível impedir ao homem, na sua irredutível liberdade, a expressão concreta da sua vontade do bem, que, segundo as circunstâncias, se pode designar por: coragem cívica, solidariedade, compaixão religiosa, dissidência, sacrifício de si”.

Uma lição.




Notícias relacionadas


Scroll Up