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Quem bota mão a isto?

Ainda recordo o entusiasmo com que, ao romper do dia 25 de Abril de 1974, tomei conhecimento de que enquanto dormia, a noite, em Lisboa, não havia sido calma e serena como as anteriores.

N/D
28 Jan 2005

A tropa estava na rua, lutando sem oposição de ninguém para apear um regime com mais de quarenta anos a remar contra a maré, em contradição com os comuns governos de uma Europa democrática que nos últimos quinhentos anos havia passado por quatro grandes revoluções: uma religiosa, uma monárquica, outra liberal e individualista (a Revolução Francesa) e, por fim, uma social que teve início no ano de 1917, mas que não vingou.
Mas tarde, e muito tarde, os novos ventos da Revolução Francesa conseguiram vencer o escarpado dos Pirenéus. E embora tarde a revolução dos cravos chegou e inundou os corações de alegria.

Mas cedo nos fomos apercebendo de que forças ocultas, a pouco e pouco, iam dando sinais de caminhar numa outra direcção oposta aos princípios anunciados pela Junta de Salvação Nacional.

A balbúrdia começa no 11 de Março de 1975 e só acaba, e em parte, no 25 de Novembro. Foi um período em que a força do PREC, apoiado por muitos dos capitães que haviam virado a casaca, começaram a semear o terror. É o período dos saneamentos selvagens, das nacionalizações arbitrárias, do exílio dos nossos melhores empresários, da auto-gestão, do poder popular, das armas em boas mãos, do COPCON e da FUR, das amplas liberdades, etc.

E foi a ferros que conseguimos uma Constituição Política, mas imposta por um Conselho de Revolução, inquinada de resquícios extremistas, impondo até o caminho do socialismo. Aproximam-se as primeiras eleições legislativas e Mário Soares torna-se no Primeiro-ministro de Portugal democrático.

Mas não acaba o mandato. Bem tenta negociar com Álvaro Cunhal, mas este não cede, pois ainda acalentava a esperança de uma democracia popular. A seguir temos a Aliança Democrática que foi sol de pouca dura.

Foi um verdadeiro oásis mas viveu o tempo de um relâmpago. Contudo, deu para deixar marcas históricas de um chefe de governo com sentido de Estado – Francisco Sá Carneiro. Talvez Camarate tenha sido o ajuste de contas do homem que se tornara incómodo.

Depois de muita hesitação surge o “Bloco Central” que, segundo José Saraiva António, (Dicionário Político à Portuguesa), «nunca um governo dispusera de uma maioria tão forte e tivera de enfrentar uma oposição tão fraca», apoiado por dois terços do eleitorado.

Os descontentes, que constituíam o outro terço, representavam a extrema-esquerda e a extrema-direita. Morreu também, antes de acabar o mandato apesar de tão representativo. Mário Soares era acusado de desconhecer os dossiers por falta de formação adequada. Mais novas eleições.

O PS consegue a humilhante percentagem à volta dos 20%, nunca antes, nem depois sofrida. O PSD ganha com maioria relativa. Cavaco Silva, uma das estrelas da Aliança Democrática, como Ministro das Finanças, forma governo. Portugal inverte a sua marcha entrando no bom caminho.

É o tempo das vacas gordas em que à hora do telejornal da noite, a televisão anunciava a subida das cotações da bolsa com campainhas: tlim, tlim. E é tal a euforia que o Primeiro-ministro sente-se até na obrigação de vir a público prevenir que se estava a vender gato por lebre.

Mas eis que Martinho (Hermínio), o homem que ao cair da tarde corria para o Tejo para tocar as vacas já com a água a dar pela barriga, põe-se em bico de pés, dado o bom resultado obtido nas últimas eleições e, como “representante” do senhor General Eanes, à frente do PRD, apresenta uma moção de censura.

E a Assembleia da República é novamente dissolvida. Mais eleições a bem da extrema- -esquerda e da extrema-direita. Novamente Cavaco Silva é convidado a formar governo e, como o povo não é burro, o PRD desaparece do espectro partidário e Cavaco conquista duas maiorias absolutas consecutivas, caso inédito até hoje e dificilmente repetível.

O País, agora de alma lavada, assiste a um prolongado período de acalmia e prosperidade. Mas cheio de intrigas e injustiças Cavaco Silva disse: “basta”. Outra vez eleições, e o Partido Socialista consegue, pela primeira vez, cumprir um mandato a roçar a maioria absoluta. António Guterres é o Primeiro-ministro.

«Chamei-lhe o homem que fala bem demais, e falar foi sempre o que ele fez melhor do princípio ao fim da sua presença à frente do governo (…) Nunca conseguiu impor ao seu executivo ritmo, autoridade e capacidade empreendedora. Pedia desculpa pelos erros do passado e cometia novos erros. Saiu do poder mais pelos resultados dos problemas que foi adiando do que daqueles que a oposição lhe criou. (…)

O momento decisivo da sua carreira foi a saída do Governo, reconhecendo que se ficasse, o país ficaria num pântano». Esta, uma transcrição do citado Dicionário Político. Daí Durão Barroso ter dito que «o país estava de tanga». E de nada vale agora a oposição varrer o lixo para debaixo do tapete.

Eis-nos chegados ao crucial momento da escolha de um novo Primeiro-ministro. Trinta anos perdidos, ziguezagueando na busca do caminho certo. Ultrapassados por tantos daqueles que estavam atrás de nós e por muitos dos que ultrapassámos com Cavaco Silva, é já tempo de ganharmos juízo.

Avizinham-se novas eleições bem escusadas. Parece que o interesse do compadrio continua a sobrepor-se ao interesse nacional. E assim continuaremos a dizer adeus ao comboio. Vamos escolher um Primeiro-ministro. Oxalá a escolha recaia sobre o melhor candidato. Santana Lopes entrou na política como segurança de Sá Carneiro, vindo a tornar-se num seu delfim.

Está a redimir-se de erros ingénuos que até nem comprometiam o bom ritmo das reformas de fundo. Dele diz José António Saraiva: «Dada a sua boa presença e capacidade persuasiva (que fazem dele um verdadeiro animal mediático), pensa que poderá inverter a seu favor todas as situações, mesmo as mais difíceis» (Dicionário Político citado).

A ser assim, o próximo dia 21 de Fevereiro pode até vir a ser uma surpresa. E talvez não para quem nunca deixou de acreditar nele.




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