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Política, dois conceitos, uma atitude

Um grande papa, Paulo VI, que foi também um grande humanista, referia-se à política como uma «arte nobre».

N/D
28 Jan 2005

Um dos nossos romancistas do século XIX deixou, para o tempo, a expressão «a porca da política», que continua a repetir-se por aí, hoje como ontem. Duas ópticas diferentes.
Uma, apontando a referência dignificante de uma actividade indispensável ao país e aos cidadãos. Outra, fazendo um juízo acre de comportamentos pessoais e de grupos, mais voltados para os seus interesses e manobras, que para o serviço da comunidade. A realidade, porém, não deve matar a utopia.

O romancista é mais repetido e citado do que o papa. Ou porque há políticos hoje que são repetidores dos colegas de antanho; ou porque se reflecte pouco sobre a actividade política, a sua natureza e missão; ou porque muitos, de quem o país precisa, não encontram na acção política estímulo para o seu empenhamento; ou, ainda, pela superficialidade que nos caracteriza em muitos aspectos pessoais e nacionais.

A verdade é que falar da política como «arte nobre», e assim continua a pensar e a falar a Igreja, é correr o risco de se considerar a afirmação como uma opinião tola, ridícula e cada dia contraditada. De muitas maneiras.

Como neste campo o estímulo para mudar a situação é muito débil, a opinião de quem opta pela positiva exigente, será sempre débil, segundo o parecer generalizado da maioria das pessoas.

A democracia tem fragilidades, muito especialmente quando a participação dos cidadãos tem de se processar num circuito fechado, como é normalmente o dos partidos políticos.

Muita gente válida fica de fora e o juízo popular, acerca da vida do país e de quem o governa, é quase sempre limitado à observação ligeira dos que actuam à boca do palco.

As coisas positivas e válidas, que também as há, depressa são esquecidas ou cobertas pelo véu sujo de quem só vê as aparências e só tem preconceitos.

A acção política não é fácil de ser apreciada em todos os seus aspectos. Na hora das opções só os espíritos maniqueístas não têm dúvidas. Para eles é tudo fácil: os seus nunca têm defeitos e os outros nunca têm méritos.

Para os que pensam com mais objectividade no presente e no futuro do país, o momento das eleições é de grande perplexidade. E já não falta gente a dizer que não vai votar ou que votará em branco. Penso que ninguém se deveria omitir do dever de votar. O voto é a arma dos cidadãos.

Há que usá-la e saber usá-la. Na perplexidade da escolha, o bem possível será sempre o menos mal. Só por essa via se poderá conseguir alguma coisa de bom, e não interromper, o que é muito importante, o percurso longo e penoso que leva o país à maturidade democrática e os partidos políticos a perceber os avisos que lhes são enviados pelos eleitores.

Também eu não vejo claro, mas irei votar. Não votar é abdicar, é outra forma de irresponsabilidade, porque é alhear-se, inutilmente, de algo que diz respeito a todos. É esquecer que a perfeição só existe como projecto contínuo, nunca como realização consumada.




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