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Vales do Ave e Cávado: alerta laranja para gigantesca crise social

A crise nos Vales do Ave e do Cávado não pára de acentuar-se dia a dia, sem que ninguém tome a iniciativa de uma urgente actuação estratégica que lhe possa pôr cobro.

N/D
27 Jan 2005

O ciclo negativo que afecta a região do Baixo-Minho iniciou-se primeiro no Vale do Ave, em meados da última década do século passado, atingindo, depois, o Vale do Cávado, em 2000, ano durante o qual encerraram mais de 1.100 empresas, com referência ao ano anterior.

Como se sabe, o crescimento económico de toda esta região fez-se, sobretudo, à custa das empresas e do emprego assentes no sector têxtil e vestuário, com predomínio de mão-de-obra desqualificada e com baixo nível de escolaridade – mais de 90% do pessoal ao serviço nessas empresas tem menos do 9.º ano do ensino básico.

E tal crescimento industrial teve imediato reflexo em outras actividades económicas, designadamente no comércio e construção civil, mas também na agricultura, onde a produção do vinho e do leite sofreram um forte incremento.

Apesar de ser excelente a qualidade do sector têxtil/vestuário e do couro, do qual depende quase 50% do emprego nesta região, a maioria das empresas não possui estrutura funcional que cubra áreas fundamentais como formação profissional, gestão da produção, design, inovação, marketing e estratégia de internacionalização.

E exactamente por isso é que estão inibidas de dar o salto de distinção para o desenvolvimento estratégico.

Foi, assim, neste contexto que se manifestou um conjunto de factores muito negativos para o referido sector industrial, dentre os quais devem salientar-se a crescente abertura do mercado da U.E. a países terceiros (China e Índia), incremento dos custos de mão-de-obra, dificuldade de acesso ao crédito bancário, ausência de marca própria para produtos de qualidade, falta de uma política nacional que promova a moda portuguesa e pouca competitividade e produtividade comparadas.

Com a crise que sobreveio, sucederam-se as falências das empresas a um ritmo impressionante e, consequentemente, o desemprego atingiu na região valores que, actualmente, se cifram em cerca de 47.000, dos quais 46,5% representam desemprego de longa duração.

Deste quadro tão desolador quanto frustrante resultam, como consequência directa, graves problemas sociais cujo efeito se torna cada vez mais difícil de minimizar: pobreza, exclusão, violência doméstica, alcoolismo, toxicodependência, criminalidade e insegurança.

Não é por isso de espantar que, num recente estudo do Instituto da Segurança Social sobre exclusão e pobreza em Portugal continental, divulgado pela imprensa no final da passada semana, todos os municípios do distrito de Braga, com excepção do concelho de Braga, tenham sido incluídos em penúltimo lugar – 5.º, numa escala tipológica de 1 a 6 -, ou seja, no estádio imediatamente anterior ao da desertificação e “morte social” do respectivo território. Segundo as conclusões desse estudo, as famílias aqui residentes, geralmente numerosas e com um grande peso de população jovem, “vivem uma situação frágil do ponto de vista dos seus recursos materiais.

E a situação tende a piorar com a liberalização do comércio internacional e com a concorrência dos novos países do alargamento da U.E.”.

Por isso é que, no dizer de reputados especialistas, as perspectivas, a curto prazo, apontam para o desaparecimento de 30% de mão-de-obra nesta região, num cenário mais optimista e de 50%, numa previsão mais pessimista.

Aliás, na indústria cerâmica do Vale do Cávado o panorama é já aterrador: quase total destruição do tecido empresarial e redução em mais de 50% do número de postos de trabalho!

Perante um quadro tão preocupante, que fizeram os Governos da coligação PSD/CDS e o anterior Governo socialista para travar a crise? Praticamente nada. Aprovaram um Programa de Recuperação de Áreas e Sectores Deprimidos (PRASD), inicialmente apenas anunciado para o Vale do Ave e, só mais recentemente, durante a governação do Dr. Durão Barroso, estendido ao Vale do Cávado.

Mas a sua aplicação, no entanto, acabou por não ser concretizada relativamente às medidas mais significativas, entre as quais se contavam a formação profissional e apoios vários à contratação. O PRASD foi, assim, uma simples ideia “vendida” para fins partidários e eleitoralistas. Nada mais.

Não admira, por isso, que o sinal de alerta que esta grave crise social suscita seja já de tom alaranjado, bem prestes a atingir o vermelho. Não há, assim, mais tempo a perder.

Urge, pois, que o próximo Governo, em parceria com as associações industriais e sindicatos, Câmaras Municipais, Universidade do Minho, empresas industriais e outras forças vivas do distrito, defina, rapidamente, um plano económico-social de emergência para ataque à crise e, de imediato, concretize as medidas mais urgentes para a combater: reconversão industrial (automóvel, têxteis-lar, tecnologias de informação, comunicações e electrónica), programas de incentivos à fixação de Investimento Directo Estrangeiro e de jovens empresários, políticas de valorização das cidades (comércio, turismo, prestação de serviços, recuperação de património histórico e artístico), de requalificação profissional e de solos, programas de apoio aos factores produtivos, apoios camarários a projectos e isenção das respectivas taxas, criação de um Centro de Logística, visando a constituição de plataformas de âmbito regional e concelhio, criação de Fundos de Capital de Risco, medidas de fomento da investigação (UM e CITEVE) e criação de centralidades rodoviárias.

E tudo isto sem prejuízo do aumento substancial do investimento público em infra-estruturas, nomeadamente no sector ferroviário (TGV Porto-Vigo, metro de superfície entre as principais cidades do Minho) e portuário.

A não serem tomadas estas providências, temo que, quando disparar o sinal vermelho – e pouco tempo faltará para isso – seja já tarde para evitar que o tecido económico e social do distrito de Braga sofra uma das piores crises de que há memória.

É, por estas e por outras, estimados leitores, que é preciso mudar. E a mudança pode começar já no próximo dia 20 de Fevereiro. A opção é vossa. É de todos nós.




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