Fotografia:
As alternativas (?) do eleitor

Não serão cruciais, mas serão relevantes as escolhas que os portugueses terão que efectuar, a 20 de Fevereiro próximo, nas eleições para a Assembleia da República e, consequentemente, para o Governo.

N/D
26 Jan 2005

Digo que não serão cruciais porque, trinta anos após a instalação da democracia, em Abril de 1974, um país com oito séculos de História não pode depender, fatal e irreversivelmente, de um acto eleitoral.
Uma sondagem divulgada a 17 deste mês pelo jornal Público e debatida nesse mesmo dia, à noite, na RTP, dava conta do considerável afastamento e desencanto dos portugueses com a política e os políticos, revelando ainda que a maioria dos inquiridos não antevê significativas mudanças no país, qualquer que seja o resultado das próximas eleições.

Nada que não se pudesse antecipar. Não fosse a situação do país estar generalizadamente assumida como preocupante, poderíamos entrever alguns dos aspectos revelados por esta sondagem, designadamente o distanciamento dos portugueses em relação às questões políticas, como inerentes à assunção da democracia como um dado adquirido, trinta anos após a revolução de Abril.

As grandes mudanças ocorridas no mundo a partir dos anos noventa do século passado – com um claro recuo, à escala mundial, da alternativa do “socialismo real”, na sequência da dissolução da URSS – afunilaram as escolhas eleitorais e abateram as paixões políticas, particularmente no mundo mais próximo do Ocidente.

Como fenómeno também novo, surgira antes a revitalização religiosa, particularmente vigorosa no mundo muçulmano – na sequência da revolução islâmica desencadeada no Irão de Khomeini, após 1979 – onde em diversos países submergiu a “secularização” autoritária estabelecida, substituindo-a por novas ditaduras (Repúblicas Islâmicas).

Atendo-me apenas ao Ocidente e às áreas culturalmente mais próximas, observa-se que num passado não muito distante – desde o século XVIII até finais do século XX – os homens e mulheres puderam empolgar-se, ou combater mesmo em armas, a favor de ideias transformadoras ou pela conservação de uma velha ordem (liberais contra absolutistas, republicanos contra monárquicos, fascistas ou comunistas entre si ou contra democratas e, nas democracias consolidadas, liberais ou conservadores contra socialistas ou sociais-democratas).

Por finais do século XX, a globalização da economia mundial é, entretanto, apresentada como incontornável e condicionadora das políticas governamentais, assim menos passíveis de cunho ideológico divergente.

No Ocidente, os defensores da globalização lembram que no passado o proteccionismo originou guerras e que, por isso, hoje, num tempo de fluxos informativos à escala mundial as trocas económicas têm de seguir o mesmo caminho, forçando uma maior produtividade no mundo desenvolvido, para que este se mantenha competitivo, acrescentado ainda que muitas centenas de milhões de pessoas dos países do terceiro mundo carecem da abertura dos mercados do mundo rico para o seu desenvolvimento.

Atendendo à história, eu arriscaria que a globalização – que tem nas multinacionais do 1.º mundo um incontestado ganhador – permanecerá irresistível enquanto não chegar a constituir-se numa séria ameaça para o nível de vida dos países hoje mais avançados (EUA, Japão e centro/noroeste da Europa, designadamente).

Verificamos, assim, que, desde finais do século XX, nos países mais desenvolvidos, as diferenças programáticas entre os partidos dominantes – conservadores, liberais e sociais-democratas ou socialistas – tornaram-se mais esbatidas, tornando, por isso, menos apaixonada a escolha dos eleitores.

A alternância política deixou, correntemente, de significar visível alternativa na acção governativa. A tendência geral, assumida por governos de esquerda ou de direita, passou a ser menos estado, reprivatização de empresas e serviços e tentativa de dinamizar a concorrência privada.

Nos países mais ricos, estando os grandes problemas da governação resolvidos (educação universal, habitação, saneamento, acessibilidades, saúde, designadamente) os diferentes governos terminam a sua acção sem que, correntemente, da mesma o eleitorado tendesse a reter referências marcantes.

Nisto Fukuyama via, benevolamente, há uma dúzia de anos atrás, sinais do fim da história (O Fim da História e o Último Homem, 1992) e a prova da superioridade das democracias liberais do Ocidente.

A despeito de a recente reeleição de Bush, nos EUA, ter assentado muito na enfatização dos valores morais – como que contrariando esta tendência -, também eu creio que o afunilamento ideológico acabará, nos tempos próximos, por se manter.

Hoje, no nosso país, a juntar a este quadro de alternância sem alternativa, vive-se a consciência de um desenvolvimento e um crescimento emperrados, sendo que vários problemas e reformas não se resolvem. Temos excesso de deputados, de burocracia, de promiscuidade entre a política, o futebol e a construção civil.

Temos excesso de fuga ao fisco, presidentes de Câmara sem limitação quantitativa dos mandatos e, todos o dizem, excesso de despesa pública.

Após o falhanço da acção dos últimos três governos (incluindo o actual), as expectativas do eleitorado permanecem, pois, compreensivelmente negativas ou, no mínimo, comedidas.

Descrentes da solidez das promessas e propostas programáticas dos diferentes partidos (Durão Barroso chegou a colocar como objectivo a convergência com o rendimento médio europeu em dez anos), boa parte dos eleitores não irá orientar-se pelas mesmas para as suas opções de voto.

A desilusão estabelecida pode induzir mais abstenção. Assim mesmo, as eleições que se avizinham apresentam-se como um momento importante. Quem não votar, terá menos legitimidade para se queixar de um mau governo futuro.

Muitos, cépticos, resignar-se-ão à escolha do “mal menor”. Atendendo ao carácter quase referendário da escolha do primeiro-ministro – o que não é novo, mas cada vez mais se agudiza -, também para muitos eleitores, sobretudo os que tradicionalmente deambulam pela área do “bloco central”, deverá ser a presumível credibilidade do líder partidário que determinará a sua opção de voto.

Aguardemos a decisão dos eleitores.




Notícias relacionadas


Scroll Up