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Restos de onda

Mesmo com novos dados a chegar constantemente sobre a tragédia planetária do Sudeste Asiático, uma coisa é certa: nunca o mundo seguiu tão de perto com os olhos e o coração, o desenrolar progressivo de uma tragédia, onde a primeira notícia indiciava a gravidade do fenómeno mas nunca o desastre da dimensão humana e geológica que atingiu.

N/D
25 Jan 2005

Foi mais uma brutal aprendizagem sobre o homem, o cosmos, a contingência, a precariedade de todo o ser criado, provido ou não de vida – quem diz, exactamente, o que é a vida no macro e no microcosmos?
Mesmo com o nervosismo da notícia em primeira-mão e da história mais bem contada, os media foram, mais uma vez, o laço global que não deixou ninguém de fora. Nem mil imagens contaram o que se passou.

Mas nunca ocorreu, possivelmente, na história da humanidade um acontecimento num recanto do mundo transcender-se em onda de emoção e solidariedade, porventura mais forte que a ressaca traiçoeira que reduziu a escombros tantas vidas e tantos sonhos, derrubando cidades, sepultando ilhas, semeando a dor e o desencanto.

Como todas as vagas, também esta, com o tempo, parece desvanecer-se na praia das areias recalcadas das notícias. O facto é que, mesmo cansadas, as pessoas continuam, por uma espécie de instinto de defesa, a querer saber tudo o que acontece, mormente os pequenos milagres de verdadeiros impossíveis que se encontram e recontam nos oceanos de lameiro e destroços em que se tornaram muitos dos locais de luxo, procurados para o lazer.

O Patriarca de Lisboa propôs uma reflexão certa e oportuna, oferecendo a leitura do livro da fé para o que parece simplesmente absurdo. E, como toda a Igreja em Portugal e tantos movimentos e obras de solidariedade, convocou os cristãos para esta missão nobre de estarem presentes no abraço e na ajuda eficaz à reconstrução das pessoas e das cidades.

Ouvimos muitas notícias. Vimos, melhor que nunca, a dimensão duma tragédia. Com o passar do tempo, vamo-nos apercebendo cada vez mais que, do tanto que aconteceu a tantos, não conhecemos mais que ínfimos fragmentos.

Para não falarmos nos oceanos enigmáticos de dor e tristeza que invadiram tantos corações que aflitivamente sucumbiram. Desses, nem uma crónica nem um gemido. É por isso que a infinidade de Deus supera todas as notícias.

E guarda o que nem os olhos viram nem os ouvidos ouviram.




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