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Medalha de ouro de humanidade

Por distracção ou por inata limitação, passamos muitas vezes ao lado de coisas importantes sem advertir que o são, preocupados apenas com os nossos problemas.

N/D
25 Jan 2005

Há alguns anos atrás, nas Para-Olimpíadas de Seattle, nove atletas, todos eles mentalmente ou fisicamente deficientes, estavam prontos na linha de partida dos 100 metros.

Ao disparar a pistola, iniciaram a corrida, nem todos propriamente correndo, mas todos com vontade de chegar e vencer. Enquanto corriam, um dos concorrentes caiu no tartã, deu umas cambalhotas e começou a chorar.

Os outros ouviram-no chorar, abrandaram o passo, olharam para ele e pararam, voltando atrás. Todos. Uma menina com síndroma de Down sentou-se ao pé dele e começou a beijá-lo e a dizer-lhe:
– Agora estás melhor?

Então, abraçaram-se todos e os nove caminharam, lado a lado, em direcção à meta. Não houve um vencedor, mas nove vencedores ex-aequo. Não foi a vitória de um indivíduo, mas a vitória do que há de melhor na humanidade profunda que neles se manifestou.

No estádio, todos se levantaram e, de pé, os aplaudiram, durante vários minutos.

Não foi preciso pedir aplausos nem foi preciso explicar a ninguém o que se passava. Todos entenderam. É aquele entendimento que nasce por simpatia, que comove, que dá alegria. É algo de profundo em nós, para além ou para aquém do raciocínio.

Ninguém pensa se vai fazer isto, se vai sentir isto. Faz. Sente.

As pessoas que estavam presentes ficaram impressionadas e continuam a contar esta história. Não sei o que se passou, mas presumo que, se pudessem, todas teriam atribuído a cada um destes nove atletas a Medalha de Ouro de Humanidade.

É que, naquele gesto de solidariedade e de amizade, está o melhor de cada um de nós. Para os oito que voltaram atrás para socorrer o colega que caiu e solidariamente o consolaram e depois caminharam lado a lado com ele até à meta não estava, em primeiro lugar, o vencer cada um por si, mas o ajudar os outros a vencer com ele.

Já não sei onde li que uma pessoa que não sabe falar com outra a não ser do tempo não se ia dar bem no céu, porque ali teria de sentir prazer em falar e estar com os outros.

São estes gestos que mostram quase instintivamente o que há de bom dentro de nós e que é preciso valorizar conscientemente. Eles não saberiam ou pouco saberiam fingir, porque são bastante limitados nas suas capacidades mentais; mas sabem sentir e ser solidariamente amigos ou irmãos.

É difícil exprimir a linguagem oblativa do amor. Infelizmente, está tão fora da nossa experiência pessoal que mal temos palavras para a dizer. Alguém procurou exprimi-la desta maneira: uma vela nada tem a perder acendendo outra e até se sente feliz com isso.

Há quem chame a isto linguagem de tipo religioso, talvez por a religião tocar o mais fundo da pessoa humana. Eu preferia chamar-lhe a linguagem do coração, a linguagem do sentimento e do afecto, para vincar que ela é natural e pode ser real.

Para ser capaz de aceitar um filho com síndroma de Down (ou semelhante) é preciso ter um coração de ouro, porque são diferentes e indefesos na vida, são marginalizados na sociedade. Curvo-me diante dessa generosidade afectiva de mãe ou de pai.

Quantas vezes, sem o dizer, me senti pequeno diante de casos destes. Eles precisam de o sentir, porque não é tarefa fácil. Ajudar estas crianças e jovens a ser mais na vida é um dever de solidariedade social.

Só não posso admitir é que haja quem viva à custa do sofrimento dos outros, explorando-os, por exemplo, em colégios ditos de educação especial, que não têm qualidade pedagógica nenhuma.

Mas também os há com qualidade pedagógica e dedicação generosa. A esses também atribuía uma medalha de ouro de humanidade.




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