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Louçã e Sócrates – a queda de um mito e a governabilidade

É a Sócrates, e a mais ninguém, que compete esclarecer os eleitores sobre o quadro político resultante de uma vitória do PS com maioria relativa

N/D
25 Jan 2005

“Não me fale de vida, não tem o direito a falar de vida!” Francisco Louçã

Eis que, subitamente, a máscara cai. Naquele momento final do debate com Paulo Portas na SIC-Notícias, Francisco Louçã revelou, por momentos, a sua natureza profundamente intolerante e reaccionária.

Esta manifestação – inquestionável – do direito à liberdade de expressão – inalienável – do Dr. Louçã, teve o mérito de trazer para a praça pública a verdadeira essência do BE.

As declarações de Louçã recordam aos portugueses que a distinção que opõe os chamados partidos do “arco democrático” ao PCP e ao Bloco de Esquerda não é, ao contrário do que as mentes mais distraídas possam pensar, despida de conteúdo.

Ela decorre de forma directa das ideologias e dos programas partidários ao longo de trinta anos de democracia e diferencia aqueles que sempre assentaram os seus modelos ideais de sociedade em exemplos provindos dos estados de direito democráticos de tipo ocidental dos outros, os que defenderam a “bondade” dos regimes soviéticos ou o progresso social decorrente da maravilhosa “democracia” albanesa, os que ainda hoje não vislumbram a existência de regimes totalitários na Coreia do Norte e em Cuba ou os que acham que são donos do direito à liberdade de expressão de outro cidadão sobre um tema tão fundamental como a vida.

A verdade ou, pelo menos, uma versão “apagada” da história, deve ser afirmada a todos os portugueses – e não são poucos – que acham que Bloco tem a sua graça ou que faz falta ao sistema político português pelo facto de ser acintoso, mas relativamente inócuo: o Bloco de Esquerda não nasceu em finais dos anos 90 por impulso de qualquer ideário de uma esquerda moderna e jovem.

Pelo contrário, resulta da fusão de três partidos residuais do sistema político português, a UDP, o PSR e a Política XXI, todos eles com raízes profundas na contra-cultura revolucionária dos anos 70 e todos liderados pelas mesmas pessoas e pelas mesmas ideias que atentam contra a nossa cultura de democracia ocidental, resultante do 25 de Abril e do 25 de Novembro.

Conclui-se, portanto, que a “esquerda moderna” é a mesma extrema-esquerda de há trinta anos e os seus líderes são, também eles, os mesmos. Anda por aí gato escondido com a cauda à mostra.

Esta questão será, porventura, particularmente dolorosa para José Sócrates. Por mais que o líder socialista bata com as portas, fuja aos jornalistas ou se esconda por detrás da sombra de António Vitorino, terá sempre que responder a perguntas essenciais.

A mais essencial de todas relaciona-se com a eventual tentativa de alargamento do chamado “arco de governabilidade” para além dos partidos do referido “arco democrático”.

Se, por um lado, a inconsistência e o apagamento de Sócrates parecem já ter comprometido irremediavelmente as hipóteses de maioria absoluta do PS, é verdade que, por outro, as hipóteses de vitória eleitoral socialista existem. O centro-direita já resolveu essa questão: se o PSD e o CDS saírem vitoriosos no dia 20 de Fevereiro, o problema da governabilidade está resolvido a priori e com total transparência.

É a Sócrates, e a mais ninguém, que compete esclarecer os eleitores sobre o quadro político resultante de uma vitória do PS com maioria relativa. Governará ao centro ou à esquerda? Caso decida governar à esquerda, abrirá as portas de S. Bento ou celebrará apenas acordos de incidência parlamentar?

Caso convide a esquerda para integrar o Governo, convidará o PCP ou o Bloco? Ou ambos? Por detrás do imenso silêncio, parece haver uma certeza: a estratégia do “holograma”, da fuga ao debate e da intoxicação dos eleitores com o anúncio de medidas demagógicas não levará Sócrates a bom porto.

Os portugueses merecem uma resposta a esta questão, de preferência até dia 20 de Fevereiro.




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