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A vida é aqui e agora

Parece uma ironia do destino que o homem possa impor as suas regras relativamente à vida, mas seja absolutamente impotente no que respeita à morte

N/D
22 Jan 2005

Num instante, a surpresa. Agonia. Desespero. O chão desliza e desaparece num buraco que se abre à nossa frente. E agora?
Num instante, o drama. O medo. Uma dor súbita. O ruir de todos os planos. O futuro desmoronado. O tempo parado. E agora?

Vivemos adormecidos, embalados num engano consciente, pois nunca ninguém nos assegurou o prazo de validade da vida. Nem podia. A vida é aqui e agora.

Vivemos embriagados de ilusões que nos roubam a lucidez e fazem esquecer o único tempo que conta – o presente.

Alguns vivem no passado. Outros vivem no futuro. Vidas arrumadas em espaços virtuais, num utópico delírio de prolongar a vida até à eternidade. Com um secreto desejo de imortalidade. E neste desejo oculto, age-se como se a morte fosse um fantasma distante que ronda apenas seres anónimos sem rosto.

De repente, algo interrompe o nosso deambular sonâmbulo e cego.

De repente, o confronto inevitável com forças invisíveis e poderosas.

De repente, a verdade nua e dura sob a forma de uma perda irreparável.

E agora? Que vamos fazer com os destroços de um futuro cimentado com barro fresco e embalado em bolas transparentes de sabão? Como se desalojam os sonhos e os projectos? Como se preenche um espaço perdido de repente? Um espaço afectivo que tinha nome e tinha voz…

E o passado? Como vamos sobreviver às memórias? Onde vamos derramar a dor? Em que lugar nos vamos esconder?

As certezas mais inabaláveis, assim como as intenções mais renitentes, podem de um momento para o outro ruir. É então que ficamos frente a frente com o inesperado, impotentes para gerir um destino desconhecido.

Tudo é temporário. Como um rio que nunca se detém no seu andamento constante e cuja água parece sempre a mesma, sendo porém uma água diferente a cada instante do trajecto.

Então, porquê o ódio, a violência, a mentira? Para quê a pressa do quotidiano? Onde queremos chegar? E se chegarmos, o que vamos fazer com todos os nossos troféus, tão efémeros como inúteis?

Será que vale a pena viver repisando a memória de tudo o que não fizemos, com a habitual desculpa da falta de tempo? E quando o tempo faltar mesmo, sem avisar? A que troco e a que preço vivemos suspensos do passado ou do futuro, deixando passar ao lado o verdadeiro tempo que importa?

Que ingénuos e pretensiosos somos às vezes, vivendo como se dominássemos o tempo! Como se o futuro estivesse desde sempre assegurado e nos pertencesse por direito próprio… E quantas coisas deixariam de ter importância, se vivêssemos um dia de cada vez. Como se fosse o último!

É verdade que temos um passado que não podemos simplesmente negar ou apagar. E também é certo que existe o futuro, pelo menos aquele que cada um tem capacidade de sonhar. Mas é precisamente porque existem estas referências, impossíveis de alterar ou prever, que se reveste de toda a importância viver no presente com a consciência plena de todas as dádivas que existem à nossa volta.

Não devemos remexer no passado, pela inutilidade do gesto. Deixar pois, que o inesperado nos surpreenda, é viver a única realidade que existe. Porque a vida é aqui e agora.

A morte nunca foi uma opção. A morte caminha ao nosso lado desde que somos. Como uma sombra silenciosa e oculta, mas irremediavelmente verdadeira e implacável. Se a ignoramos, é porque desde sempre a esconderam de nós como um tabu. Como se aquilo que se esconde ou se evita, não fosse tão real como nós!

O tabu construído à volta da morte está relacionado com o medo universal do desconhecido. Porque, enquanto seres humanos terrenos, e independentemente da crença de cada um, é certo que a morte significa o fim da vida tal como a conhecemos.

E é esta a verdade da qual fugimos, como se fosse possível encontrar um esconderijo seguro para escapar deste desfecho irreversível.

Parece uma ironia do destino que o homem possa impor as suas regras relativamente à vida, mas seja absolutamente impotente no que respeita à morte. Por isso a morte é a única lei, inutilmente contestada, que se cumpre rigorosamente…

Não obstante a dor estar quase sempre ligada a esta forma de perda, é verdade que ela também significa mudança e lidar com a mudança obriga-nos a crescer e a repensar convicções. É assim possível integrar a dor da morte na experiência de vida como um estímulo positivo e nunca como um fracasso. E é aqui que reside a verdadeira contrapartida – a dor de uma perda nunca é gratuita…

Talvez não haja consolo possível no irremediável, mas pode haver aceitação quando se acredita que existe um destino comum…

E depois… existe o azul do mar, o verde da esperança e o arco-íris a reflectir a cor de todas as flores.

Não será este horizonte mais fascinante que o nosso ajuste de contas diário com o tempo, fazendo planos para um futuro virtual e revivendo memórias já quietas e seladas?

Existirá dom mais sublime do que estar vivo e atento à natureza que nos rodeia, aspirando os seus infinitos aromas e inebriando-nos com a beleza indescritível de raros matizes de luz e cor?

Aprendamos com a sabedoria da natureza, renovada a cada estação, usufruindo a vida aqui e agora. De acordo com os ciclos naturais. Enquanto temos tempo…




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