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«Decorada à força de cana»

Há um sinal positivo que se constata: a intensificação de cursos de formação religiosa

N/D
21 Jan 2005

Confesso que me preocupa o número crescente de cristãos praticamente ateus. A muitos deles caiu-lhes, nalgum momento da vida, à leve película de uma catequese sem continuidade e, aqui e ali, decorada á força de cana», desabafa João Aguiar, em artigo sob o título “A cultura do vale tudo”. Se o diz é porque o constata.

Se o constata é porque existe. Porque existe e não concorda com isso, lamenta. Já é meio caminho andado tê-lo dito. Cumpriu a sua parte de dever de empenhamento pessoal das suas convicções, porque não podem todos fazer a mesma coisa.

A outros compete agora interrogar-se sobre isso e fazer mais alguma coisa para além do lamentar publicamente uma situação com que toda a gente convive mas que, à força de olhar para as coisas sem as ver e de viver conforme o meio influencia, tomam por convicções o que não passa de adaptações ao meio ambiente.

E essa é uma das lacunas graves do nosso tradicional meio cristão. Já não é de agora a crítica de que a pastoral de manutenção devia ser, antes de mais, informada pela acção de evangelização. Pôr o telhado antes das paredes? Ensinar antes de evangelizar? Em termos de tempo, a fase da catequese só faz sentido após a fase da evangelização.

E quem disse que os catequizandos já se converteram? Quem evangeliza fala de alguém que mudou a sua vida, que deu sentido e alegria à sua vida. Só depois de conhecer e gostar dessa pessoa é que me interessa saber mais acerca dela. Mas é um saber pessoal, é um saber de afecto, é um saber que me toca intimamente. Jesus Cristo não é uma doutrina; é uma pessoa. E então como é que se ensina uma pessoa?

O amor a uma pessoa não se ensina… pior ainda, à força de cana. O amor descobre-se, contagia, sente-se, vive-se. E essa vivência transforma a pessoa, torna-a enamorada. E isso não se pode esconder. É a tal força evidente do testemunho. Se alguém me fala de uma pessoa com a frieza de quem fala de uma ideia, isso nada ou pouco me afecta, a não ser que diga alguma coisa para a minha vida; mas se alguém me fala de um amigo como de uma pessoa fantástica, eu fico com curiosidade de o conhecer.

E essa curiosidade de o conhecer ou a relação pessoal de afecto que com ele comecei a ter leva-me a querer saber mais sobre ele, independentemente de eu viver neste ou naquele ambiente. Voltando à catequese, para ser formador ou catequista não basta saber a doutrina, é preciso ser alguém convertido e apaixonado por Cristo.

O que parece é que talvez a maioria nunca tenha passado por essa experiência íntima de relação pessoal e de transformação do sentido da sua vida. Apenas lhe ensinaram determinadas ideias ou formas de viver, a forma de viver da maioria. E ele adaptou-se, sem fazer ondas. Vive integrado nas práticas sociais da maioria, porque precisa de se sentir aceite. São adaptações. Não são necessariamente convicções.

Há dias, a minha filha contou–me que uma amiga dela se ia casar, amiga que conheço muito bem e era visita frequente de casa. Essa amiga da minha filha nunca foi baptizada. Mas como o rapaz com quem se vai casar é de uma família tradicional cristã, ele queria que o casamento fosse celebrado na igreja.

Então, ela dirigiu-se à paróquia para ser baptizada. Aí foi-lhe dito que, antes de ser baptizada, tinha de fazer a preparação catecumenal, que não era apenas aprender umas coisas e… já está; era uma espécie de estágio pessoal inserida no grupo catecumenal, aprender a descobrir e viver a fé em Jesus Cristo. Ela aceitou.

Mas como isso estava a demorar mais do que o desejado para se casarem, dirigiu-se a outra paróquia e… ficou logo tudo resolvido. Fez-se a cerimónia do baptismo. E pronto.

O ritual passou por cima da conversão pessoal. Ex opere operato. E lá se vão agora casar com toda a pompa e circunstância na capela de um castelo antigo.

Mas pode haver outros exemplos bem mais próximos da realidade do que escreveu João Aguiar. Este, por exemplo: as crianças vão para a catequese, isto é, vão aprender (espero que sem os tais métodos persuasivos…). Aprenderam, isto é, fez-se a avaliação mais ou menos contextualizada, mais ou menos sumativa, tiraram nota positiva, passaram, vão fazer a comunhão. Ponto final.

Ou então, outro exemplo: em fase seguinte, vão-se preparar para fazer o Crisma: aprenderam, tiraram média na aprendizagem, podem fazer a confirmação da fé (ou da doutrina da fé?) sob a presença autorizada do Bispo. Depois, é só seguir, enquadrados na comunidade que, por sua vez, também fez assim. Quando chegarem ao casamento, voltam à igreja. E, pronto. Está criada a influência sociológica do meio. Nasceram as adaptações sociais cristãs.

Há um sinal positivo que se constata: a intensificação de cursos de formação religiosa, porque a hora de os cristãos de base serem chamados a assumir a responsabilidade social e eclesial da sua fé está cada vez mais urgente, porque as mudanças sociais assim o impõem. É muito positivo que isso aconteça. Mas é essencial não esquecer que de pouco serve uma cultura cristã sem a conversão cristã.




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