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Até às últimas

Há mesmo partidos que não se importavam de passar os meses em permanente calendário de eleições, à espera da impossível conquista

N/D
21 Jan 2005

Os partidos da oposição, todos, em todas as épocas, são os grandes especialistas na exigência de investigações aos actos da governação. Pelo muito e por quase nada, sai logo uma Comissão de Inquérito. Porque em tudo procuram descobrir uma responsabilidade política. E, depois, exigem que se vá até às últimas consequências.
Doa a quem doer.

Mais do que um direito/dever, parece existir um gozo especial em fazer mossa, atrapalhar, enfraquecer, descredibilizar o Executivo, apressando a sua queda. Afinal, o sonho último, na gula pelo poder. Há mesmo partidos que não se importavam de passar os meses em permanente calendário de eleições, à espera da impossível conquista. E porque lhes é, felizmente, impossível, vivem nesta política divertida de aproveitar todos os pretextos para, tão só, deitar abaixo. Desprezando todas as gravíssimas consequências da instabilidade governativa. São o caruncho da Democracia.

O supremo e legítimo bem geral exige que se defenda e garanta uma razoável estabilidade dos governos. De cada Ministro no seu posto e da coesão de todo o Executivo. Isso exigiria o máximo de ponderação e argúcia nas escolhas. A mudança de Ministros e a dança de governos transforma o país num permanente laboratório ambulante, em que os que chegam ou esquecem ou destroem o que os anteriores realizaram. Perde-se tempo, perde-se eficácia, não se avança. Seremos todos eternas cobaias de experimentações sempre inacabadas.

Veja-se o exemplo do ensino. E foi exactamente nos problemas da atribulada colocação dos Professores, que surgiu uma das mais veementes exigências das oposições em ir até às últimas consequências. Já não bastaria a demissão da Ministra.

O Governo era responsável no seu todo. Maximamente o Primeiro-ministro.

Aproveitando outros pretextos e enchendo-os de enorme ruído exterior, a sentença final, embora com certa dose de surpresa no tempo e no modo, caiu inteira no gozo dos reclamantes: dissolução do Parlamento e eleições antecipadas.

Serão os Governos os únicos e os últimos verdadeiros responsáveis pelas crises?

Chega substituí-los para resolver os problemas mais graves? Eu penso que não. É que é preciso cavar mais fundo. O mal pode estar na raiz. Na verdade, se o Primeiro-ministro escolheu os Ministros, deve dar conta do desempenho de cada um.

Mas quem o nomeou e deu posse ao Executivo foi o Presidente da República. Quem aprovou o Programa do Governo foi a Assembleia da República. Quem elegeu o Presidente foi o Povo português. E agora? Parece anedota, mas nem tanto.

Se o Povo português elegeu maioritariamente aquele Partido para governar, se os outros Partidos não foram eficazes em evitar essa maioria, se os abstencionistas se desinteressaram e nada fizeram, todos, por acção ou omissão, seremos finalmente os últimos responsáveis. É triste, é dramático, mas é real. A lógica tem que seguir inexoravelmente o seu caminho.

A Democracia é a responsabilização de todos. A sociedade é um corpo organizado e a sua saúde depende do bom desempenho de cada um. Uma crise de Governo e um acto eleitoral têm de avivar em todos esse sentido de corresponsabilização. Se continuarmos deitados à sombra da bananeira, a criticar e a exigir aumentos, não há Governo nem eleições que nos valham. Seria a demissão e o reconhecimento da incapacidade para nos auto-governarmos.

Nesse caso fatal, só nos restavam duas hipóteses: Bruxelas ou as Berlengas. Arrependidos e engravatados à moda do nosso mui nobre e leal Egas Moniz, caminhemos de corda ao pescoço a pedir auxílio à Comunidade. Temos lá gente amiga, que nos compreende.

Talvez um governo a 25, específico só para nós, que nos ensine a “arte de bem cavalgar” todas as dificuldades. Se isso falhar, então, ai Deus!, teremos de emigrar em massa para as Berlengas e os que não couberem que fiquem a nadar. Os incompetentes, em maior número e mais aguerridos, hão-de empurrar os competentes; e por sobre o naufrágio ficará a boiar o cadáver político de uma Nação que não soube encontrar o Portugal Desconhecido que sempre esperou por si.




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