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Projecto escolar e cidadania

Ainda me lembro que no meu tempo de escola (anos 50) era comum ouvir-se dizer que a pequenada ia para a escola para aprender a ler, a escrever, a contar e desenhar. Hoje pergunto-me: seria apenas isto? Era uma actividade puramente intelectual?

N/D
20 Jan 2005

Nos meus tempos de Seminário (aliás aqui bem perto, no Fraião), por semana, e normalmente à noite, tínhamos umas aulas de boas maneiras, orientadas pelo livro com o título de “Civilidade”. Aqui se ensinavam as coisas mais simples de saber estar em sociedade e saber viver com os outros de maneira “civilizada”, isto é, com boas maneiras e respeitosamente.
A Declaração dos Direitos do Homem, no artigo 26, acentua a especificidade da educação, afirmando que a “educação deve visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o reforço do respeito pelos direitos do Homem e pelas liberdades fundamentais”. Daqui se poderá concluir que a educação ultrapassa a mera distribuição de saberes intelectuais, para mergulhar na formação da personalidade do aluno ou da aluna.

Daqui também se poderá concluir que não poderá ser apenas um ensinar de tradições e modelos culturais, herdados de geração em geração, mas também a administração de saberes novos, que abram os indivíduos ao progresso e às aquisições deste nosso tempo em todos os seus aspectos.

A educação nas nossas sociedades modernas não é apenas um conjunto de ritos a que estão sujeitos as crianças, os adolescentes e os jovens das nossas escolas ou agrupamentos escolares, para se integrarem em esquemas tribais, perpetuando assim os valores da tradição e das culturas ancestrais.

É, por isso, também que a educação, hoje, não se pode transformar em saberes que apontem somente para a submissão obediente a uma determinada maneira de ser social, mas que gerem no aluno o dinamismo interior, em ordem ao fomento da sua criatividade libertadora, autonomia e auto-realização.

Já não estamos no tempo do “magister dixit”, mas num tempo em que a dinâmica educacional, passa por uma partilha de saberes e de valores, em ordem ao desenvolvimento pessoal e da integração consciente e responsável na sociedade global.

Deste modo, a educação não aponta só para o domínio intelectual, mas também para o mundo dos valores, entre os quais estão aqueles que nos permitem uma integração plena na sociedade em que nascemos e onde nos queremos ver totalmente inseridos e actuantes.

E que métodos usar, também deve ser uma outra questão? E o que se entende por indivíduo e a sua relação com a personalidade a desenvolver, também é outro assunto importante!

Da palavra indivíduo poderemos tirar outra, que é individualista. E quando dizemos que alguém é individualista, estamos a afirmar um aspecto menos nobre da sua personalidade, pois joga a sua posição no “ego” e, por isso, torna-se egocentrista e mesmo egoísta.

Pelo contrário, aquele que tem personalidade forte sabe enquadrar o seu valor pessoal no todo social, no respeito e no diálogo com o outro e com os outros. E neste todo social (sociedade) existem normas ou regras que definem a conduta e os comportamentos dos indivíduos socializados. Daqui, a existência dessas normas.

Normas que são uma espécie de segurança quer contra a anarquia, quer contra a coacção. Isto porquê? Porque a personalidade só pode existir na autonomia e a autonomia é criadora de relações recíprocas, baseadas no respeito e no diálogo entre pares ou semelhantes.

Daqui se poderá deduzir que estamos num tempo em que a escola deve usar métodos criativos e os próprios alunos se tornarem os mais activos possíveis neste trabalho, que é fundamental para a construção da sua própria personalidade. Desta forma, educar não é domesticar, nem formatar. É elevar, é libertar, é como que “concriar”.

Desta forma, ter direito à educação é mais que ter direito a frequentar uma escola pública ou privada. A criança, o adolescente e o jovem (e mesmo adulto, no ensino recorrente), têm o direito de encontrar nessa escola, aquilo que se torna necessário para que o seu raciocínio se desenvolva, e a sua consciência moral acorde e se fortaleça.

Sabemos que é importante que haja um bom ensino de Matemática, de História, de Informática, de Artes, de Filosofia, de Ciências Sociais ou de Comunicação. Mas este desenvolvimento intelectual tem de se fazer cruzar com outros aspectos sociais e morais e com a própria afectividade. Não se tomando em conta estes aspectos, qualquer projecto escolar se toma débil e facilmente ruirá. Mais ainda: torna-se árido, desmotivador e até, sob o ponto de vista da globalidade humana, redutor e castrador.

Na educação não há que fazer crescer o intelecto por um lado, e por outro, o sócio-moral. A pessoa humana é uma só, e o seu desenvolvimento deve ser simultâneo e harmonioso.

Hoje em dia, em que parece só valer o que é contabilizável ou traduzido em números, o problema do desenvolvimento global da personalidade humana, é mais urgente que nunca. Não se tratará, como ficou dito atrás, de gerar uma sociedade de cidadãos submissos e mecanicamente obedientes, de modo puramente formal, na base da imposição de tradições religiosas e rituais de carácter sócio-cultural, mas empenhar os indivíduos na construção da sua autonomia e no respeito pela reciprocidade e multiculturalidade.

Há três aspectos importantes nesta consciência, que a criança vai tomando, com a educação, que são o afecto, a relação e o respeito. Daqui o ambiente em que a criança cresce e mantém os seus relacionamentos e aquisições (família, escola e sociedade), seja importante e decisivo. Somos o fruto do nosso próprio esforço pessoal, mas também somos a consequência do meio em que vivemos e crescemos.

Há coisas que se bebem com o leite materno ou nunca mais se adquirem. Há coisas que se perdem na escola, que nunca mais se encontram na sociedade.

Esta relação que as crianças desenvolvem com os adultos, com a escola e com o próprio meio social, desempenha um papel importante na conquista duma cidadania adulta e responsável. É por isso que continuamos a dizer que “As palavras voam, mas os exemplos arrastam” e ainda”, respeita, se queres ser respeitado”.

Tudo isto que vai de fora para dentro, e ainda tudo o que cada qual vai adquirindo interiormente, servirá para que a criança, o adolescente e o jovem, possa ir assumindo os seus actos, e moldando os seus comportamentos, responsavelmente socializados. Aliás, o que é imposto de fora, e não é assumido interiormente, não toca verdadeiramente, o desenvolvimento da personalidade. E, sendo assim, não forma cidadãos, mas puros joguetes sociais. O que não interessa a uma sociedade livre.

Daqui se poderá deduzir qual a missão dum projecto escolar: queremos formar ou formatar indivíduos intelectualmente brilhantes, ou gerar cidadãos conscientes e responsáveis para uma sociedade livre?

Espero que os projectos escolares de cada Agrupamento se pautem pelas exigências da segunda proposta ou alternativa.

Queremos gerar cidadãos conscientes e responsáveis para uma sociedade adulta e livre.




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