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Política e coerência

A experiência tem-me demonstrado ser a coerência uma dama de que certos políticos se divorciaram. E pelo rumo que as coisas levam não se vislumbram grandes sinais de uma próxima reconciliação. Parece que cada um seguirá o seu caminho, fazendo a sua vida, como se a outra parte deixasse de existir. E é pena.

N/D
20 Jan 2005

A grande norma que hoje orienta as decisões de certas pessoas é a da conveniência. O que, neste momento, convém é o que se faz e o que se diz. Por conveniência se fazem alianças que à luz dos princípios se mostrariam impensáveis. Por conveniência se disparata, para chamar a atenção. Por conveniência se dá o dito por não dito. Por conveniência se não cumpre hoje o que ontem se prometeu. Por conveniência se divulgam projectos que de antemão se sabe não ser possível concretizar.
Há indivíduos que trazem na algibeira dois discursos: um que se usa quando o seu partido é poder e outro, quando é oposição. Erros que hoje se denunciam são literalmente repetidos ou apoiados no dia seguinte pelos denunciantes da véspera.

Se o partido A, por exemplo, detém a maioria absoluta, adeptos do partido B não desperdiçam a oportunidade de denunciar os perigos que isso acarreta, a arrogância com que o poder absoluto actua, as jogadas e arbitrariedades que permite, os graves inconvenientes da ditadura da maioria. Apoiantes do partido A, porém, não deixam de exaltar os benefícios da tal maioria absoluta, que permite estabilidade e dá aos governantes maior poder de acção e de decisão, tudo em proveito – claro! – do bem comum.

Quando os papéis se invertem e a maioria absoluta passa para o partido B, então militantes do partido A, que tanto a elogiavam, só nela vêem defeitos, e gente do partido B, que tanto a criticava, só nela encontra virtudes. É o discurso da conveniência e do interesse.

Se o partido A, mercê de habilidades que não vêm para o caso mas que o exercício do poder lhe torna possíveis, controla directa ou indirectamente alguns meios de comunicação social, adeptos do partido B não deixam de denunciar a forma como se está a desinformar e a manipular a opinião pública. E o cidadão menos atento fica convencido de que, quando o partido B for poder, tudo muda e o público passa a ser informado com a maior das independências e das transparências.

Simplesmente, porque lhe convém, o partido B é capaz de copiar o comportamento dos que o precederam, e quem antes protestava agora até diz que assim é que se deve proceder.

Quando via um professor usar métodos que criticava no tempo de aluno, um amigo meu dizia que ao passar de aluno para professor se muda de óculos. E até parece que a realidade muda, só porque no palco da vida se invertem os papéis.

Fica-se, por vezes, com a impressão de que, para certos indivíduos, o erro, o mal, os abusos estão sempre do lado de lá. Os outros são uns indecentes, uns corruptos, uns oportunistas. Os outros. Eles, não. Eles são os seres mais impolutos que a natureza produziu. É algo de semelhante ao comportamento de alguns adeptos do futebol: se a equipa ganha, o árbitro fez um trabalho irrepreensível; se perde, o árbitro só soube prejudicar.

É um erro dizer que tais pessoas só sabem dizer mal. É verdade que tanto dizem mal como dizem bem. Simplesmente, o que nuns é bem noutros é mal; o que hoje é bem amanhã é mal, e vice-versa. A bondade e a maldade de idênticos actos depende unicamente das conveniências. Dos óculos com que se vê a mesma realidade.

E é num mundo assim, onde existem contradições e incoerências, que a gente tem de viver e de fazer um esforço para saber, se o conseguir, quem diz a verdade e onde está a razão.




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