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Sobre a auto-estima lusitana

Devemos esforçar-nos por subir no patamar da riqueza, mas não devemos deixar que a lamúria e a ausência de um lugar no top do desenvolvimento esmoreça,desproporcionadamente, o ânimo colectivo. Tal como a personagem de Shakespeare,
atrevo-me a propor que ousemos filosoficamente dizer que também somos felizes por não sermos demasiado felizes…

N/D
19 Jan 2005

Ainda que já ande no ar o ambiente de pré-campanha eleitoral, as mensagens dominantes nos media ou mesmo as pequenas promessas dos dirigentes dos principais partidos políticos cotam-se por visível comedimento, quando não encerram mesmo mau augúrio. Os indicadores económicos relativos ao presente e os que são estabelecidos prospectivamente teimam em não permitir grandes arroubos de optimismo e, por isso, a ladainha estabelecida nos designados opinion makers estatuiu-se como parte integrante da designada vox populi (voz do povo). Ou seja, toda a gente fala da crise.

Uns porque a sentem de facto, outros porque talvez a temam e outros ainda porque reconhecem ou aceitam que, afinal, a despeito da sua notória prosperidade, haverá quem esteja submetido a alguns constrangimentos ou quem esteja vergado à míngua.

No que a mim respeita, a conjuntura depressiva que tem atravessado o nosso país nos últimos anos tem servido também, naturalmente, para abordagens diversas neste espaço, nas quais o presente se cruza com diversos quadros da história portuguesa ou da história do Ocidente. Nestas abordagens tenho, com alguma frequência, enfatizado as recorrências detectáveis na mentalidade ou na história – contemporânea, sobretudo -, assim como tenho, noutros casos, procurado expor as claras diferenças entre o tempo que vivemos e o passado, ainda que não muito longínquo.

Ultrapassada esta prova de paciência pelo leitor, vencida esta breve introdução, gostaria, uma vez mais, de remetê-lo para o último terço do século XIX e mesmo um pouco mais para trás para daí podermos reter algumas semelhanças e, eventualmente, uma sugestão proveitosa para o nosso quotidiano.

Com efeito, o país perdeu a inteligência e a consciência moral. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.

Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços são abandonados a uma rotina dormente. Mas estarei eu também submergido pelo fatalismo, pela decepção intransponível – interrogar-se-ia porventura o leitor, não estivessem as palavras atrás em itálico.

Embora qualquer um de nós pudesse subscrever algumas destas afirmações, convém esclarecer, desde já, que as mesmas vieram a público em meados de 1871, num artigo escrito por Eça de Queirós para o primeiro número de As Farpas, uma iniciativa conjunta daquele escritor e de Ramalho Ortigão. Neste mesmo artigo, Eça afirmava que não “quisemos ser cúmplices da indiferença universal”, propondo ainda: “Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia”.

Nas diversas obras ou escritos que Eça publicará, já o lembrei aqui no meu último artigo, através de outras palavras – tratando de assunto diverso -, perpassará correntemente uma visível decepção, numa ironia correntemente atravessada por algum cinismo, com o Portugal do seu tempo.

Porém, o país nos mais de cem anos que passaram entre o juízo mordaz, o retrato envilecido, atrás emitido por Eça e os dias do presente, mudou muito. Pudera! – opinou já o leitor. O país mudou, de facto – todos o devemos reconhecer. O retrato da paisagem humanizada do Portugal de hoje, assim como o perfil do português médio haveria de parecer aos nossos conterrâneos de finais de oitocentos bastante diferente.

Ademais, embora em Portugal os indicadores do desenvolvimento tenham efectivamente regredido nos últimos anos, convém manter alguma frieza de espírito para reconhecer que, no plano mundial, pertencemos ainda ao escasso clube dos países desenvolvidos. Alguns políticos e economistas lembram-nos ainda, com frequência – como que em jeito de consolo -, que somos um dos países que mais evoluiu nos últimos cinquenta anos.

Mas, tomando como adequadas ao presente algumas das palavras de Eça, atrás citadas, acabamos por reter que persistem no nosso país alguns traços, deveras arrastados no tempo. E como encontrar então o contentamento, como elevar o estado da alma, num tempo de desencanto nacional? Numa época em que o número e a percentagem tendem a servir de referência para tudo e logo também para a “satisfação” ou para esse modo de estar ou sentir designado por “felicidade”, talvez se mostre adequado afinar por padrões menos exigentes a nossa felicidade colectiva.

Aceitando os critérios económicos, podemos ver que a pobreza se mede, decididamente, através de dados efectivos e quantitativos, mas, para além disso, a sua percepção resulta ainda de elementos comparativos (nos países da UE são considerados pobres, relembro, aqueles que usufruem menos de 60% do rendimento médio nacional) e logo quase que também de um estado de ânimo (um pobre luxemburguês pode ser da classe média baixa em Portugal e um pobre no nosso país pode também não o ser em Marrocos).

Assim – por enquanto, ao menos – a frustração geral, que parece espalhar-se perante a crise do tempo que passa, resultará muito mais da percepção de alguma impotência nacional para acedermos à primeira linha do desenvolvimento na Europa e no Mundo – à qual, de verdade, nunca pertencemos – do que do facto de estarmos já esmagados pela pobreza.

Devemos esforçar-nos por subir no patamar da riqueza, mas não devemos deixar que a lamúria e a ausência de um lugar no top do desenvolvimento esmoreça, desproporcionadamente, o ânimo colectivo.

A finalizar, tomaria ainda a boleia oportuna de outro autor consagrado, recordando algumas palavras de Shakespeare, escritas no Hamlet, bem antes da época de Eça. Aí, a personagem Guildenstern, esclarecendo a sua disposição e a de outro companheiro – em resposta a uma questão colocada por Hamlet -, diz estarem “Felizes por não sermos demasiado felizes.

Não somos a copa do chapéu da fortuna”. Ignorando o risco de ser acusado de plágio, atrevo-me, pois, a propor que, em nome do combate à colectiva melancolia, ousemos filosoficamente dizer que também somos felizes por não sermos demasiado felizes…

Nota de Redacção: Com um pedido de desculpas ao autor e aos leitores, repetimos hoje a publicação deste texto, uma vez que na edição de ontem o mesmo saiu com várias gralhas que lhe alteraram todo o sentido.




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