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Referendo, não; referendo, sim

Já todos sabemos como são contraditórios os políticos. Se lhes for conveniente, desdizem-se hoje do que disseram ontem; juram agora uma coisa que mais logo jurarão que nunca juraram.

N/D
15 Jan 2005

A mais recente cambalhota é a das maiorias absolutas. Aqui há uns anos, alguns eram absolutamente contra. Chegavam mesmo a afirmar que eram antidemocráticas. Assim mesmo!
Moveram-lhes tais ataques que, mais tarde, durante a campanha eleitoral do Guterres, embora pretendessem, desesperadamente, a maioria absoluta, não ousaram chamá-la pelo nome próprio.

Tiveram vergonha, tão óbvia, tão descarada, era a contradição. Agora, pensando que a gente já se esqueceu, vemo-los não só a pedirem novamente aos eleitores maioria absoluta, como até a proporem alterações no sistema constitucional que facilitem a formação das ditas cujas. Um espanto!

O facto, porém, de já sabermos que eles são mesmo assim, contorcionistas, para não lhes chamarmos oportunistas ou coisa ainda mais grave, não deve levar-nos à resignação nem impedir-nos de os repreender quando merecem. E é isso precisamente o que pretendo fazer aqui hoje.

Quero denunciar uma contradição intolerável de José Sócrates, pelo que ela supõe de desprezo pela vontade dos cidadãos e, mais grave ainda, pela vida humana, pelos valores fundamentais que estruturam as sociedades civilizadas. Perante uma coisa destas não posso ficar calado, seja quem for o político, pertença ao partido que pertencer.

Há dias, perguntaram a José Sócrates, em visita à região de Montalegre, se voltaria a propor um referendo sobre a regionalização, caso viesse a ganhar as eleições e a formar governo. Respondeu terminantemente o dirigente socialista que não. E a razão era muito simples: porque não podemos andar sempre a fazer referendos até conseguirmos os resultados que pretendemos.

Pois, passadas somente duas ou três semanas, vemo-lo a defender, com toda a desfaçatez, um novo referendo sobre o aborto, e o mais depressa possível.

Segundo leio, antes mesmo do referendo sobre a Constituição Europeia. Quer dizer, no caso da regionalização, não há novo referendo porque a vontade dos cidadãos é para respeitar. Em assunto muitíssimo mais importante, como o do aborto, já não é.

No primeiro caso, não podemos andar sempre a referendar até conseguirmos o resultado que queremos; no caso do aborto, sim, já podemos fazer todos os referendos necessários para atingirmos os resultados pretendidos.

Inacreditável! Como é possível tão flagrante contradição, ainda por cima em matéria de tamanha gravidade como é a defesa da vida humana?

Por estas e por outras é que o prestígio dos políticos anda tão por baixo. A culpa, verdade seja dita, é também nossa. Temos o que merecemos. Tanto suspeitámos deles, tanto os enxovalhámos, tanta lama atirámos mesmo aos mais íntegros e competentes que agora só nos ficou o refugo.

As pessoas íntegras e que ainda têm respeito por si mesmas, não estão para serem constantemente insultadas, vendo cair sobre si suspeitas de ladroagem, nepotismo e outras infâmias igualmente gravosas.

Para terminar, quero deixar só mais uma pergunta: por que motivo não deu a grande comunicação social relevo às declarações de José Sócrates, em Montalegre? Eu ouvi-as na rádio, por acaso. Quantas mais pessoas as terão ouvido? Que misteriosos silêncios ou cumplicidades serão estas?




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