Fotografia:
Redescobrir a vida (2)

O sentir de hoje é predominantemente o apelo ao prazer e ao lazer.

N/D
12 Jan 2005

Há tempos, passei por uma aldeia que está, como quase todas, a despovoar-se porque não há empregos e as pessoas recusam trabalhar na agricultura (querem um emprego, mas não querem trabalhar), os campos ficaram ao abandono, as casas fechadas…
Pois ali mesmo, havia muitos pomares, que vão sendo abandonados, porque a mão de obra fica mais cara do que o rendimento que dão.

Um dos melhores campos de pomar, com água corrente, foi transformado em campo de jogos. Perguntei porque estragaram aquele magnífico campo de pomar, que já tinha visto várias vezes carregado de maçãs. A resposta foi: ninguém o quer trabalhar, preferem comprar as maçãs que vêm de fora.

E eu pensei: que pena, ainda continuamos na utopia de que todos querem, têm que ser “doutores”, isto é, não trabalhar (é mais ou menos este o sentido que o povo lhe dá). Cursos técnicos, Institutos Técnicos? Não.

Isso é de segunda classe. O Estado tem de pagar a todos para serem doutores. Não têm média de acesso? Baixa-se a média. Afinal, alunos com médias mais que negativas entram para certas escolas particulares e saem de lá com melhor classificação final do que os que entraram com médias mais altas. Chamam a isso democratizar o ensino. O nome é outro (o leitor sabe).

Aqui ao lado, na Espanha, vêem-se as terras cultivadas com grandes produções; entre nós, as terras ficam ao abandono. Diariamente, camiões vindos de Espanha cruzam as nossas auto-estradas para vir abastecer as povoações de Lisboa (e não só Lisboa, mas o país todo: há pouco tempo, entrando numa frutaria, junto ao Parque Terra Nostra, nos Açores, reparei que a quase totalidade da fruta lá exposta vinha da Espanha).

Tudo ou quase tudo que se compra nos supermercados é espanhol. Não os censuro. O mercado e a concorrência são livres. Lá há cursos técnicos e universitários, as pessoas desenvolvem as suas capacidades, produz-se e enriquecem; cá compra-se o que eles mandam, fazem-se manifestações de estudantes e vamos ficando dependentes. Eles compram as nossas quintas e põem-nas a produzir.

E os que dantes não queriam trabalhar, enquanto as quintas eram de portugueses, são agora seus empregados.

Em Portugal, o que está a dar é o negócio dos cursos ditos “superiores”. Crescem como cogumelos, tanto nas escolas públicas como nas particulares. Vendem-se cursos de toda a forma e feitio, a maior parte dos quais não serve rigorosamente para nada, porque não têm qualidade científica e estão desadequados da realidade.

Mas, o que é preciso é ter um diploma de “doutor”, ainda que não sirva para nada. Hoje em dia, um curso que não dê um diploma de licenciado não tem valor, é socialmente mal visto, é desvalorizante.

E alunos com médias negativas entram para cursos universitários com a maior á-vontade, quando se está cansado de saber que seriam aconselhados para tarefas mais de ordem técnico-prática, mais de realização. Depois, acontece aquilo que todos sabem: incompetência e desemprego aos milhares… Não faz mal, vão eleitoralmente para a função pública.

Ainda há bem pouco tempo, quem quisesse, por exemplo, dedicar-se à culinária, fazia o seu curso teórico-prático em escolas com boas práticas, mais valorizado ou não no mercado conforme a imagem que a escola tivesse; hoje, é diferente: tem de fazer uma licenciatura em engenharia de culinária…

Pode acabar o curso sem saber estrelar um ovo, mas tem um diploma de engenharia de culinária…

Não estou contra a qualificação superior dos alunos nem contra o acesso à universidade dos que para tal mostrarem competência. Mas em Portugal ainda se acredita que todos devem ir para a universidade, todos devem ser doutores, mesmo que para isso seja necessário votar contra a exigência de competências. É a degradação do ensino.

Perdeu-se o bom senso. Quando chegará o tempo de as pessoas acordarem para a realidade? Só depois de ficarmos completamente dependentes em termos económicos do estrangeiro?

Outro negócio que cresce a olhos vistos é o das telenovelas, das máquinas do sonho. Imitando os brasileiros, fazem-se telenovelas e passam-se telenovelas de manhã à noite na TV. As pessoas sentem-se bem sentadas, passivas, a sonhar (ainda se os sonhos fossem bons…).

Também não sou contra as telenovelas. Às vezes, nem sei qual é melhor: se optar pelas televisões que passam telenovelas de manhã à noite, se pela agitação permanente dos pseudo-debates políticos, onde tudo se questiona e põe em dúvida, num clima de utopia e vedetismo que até parece que voltamos ao tempo do PREC.

Mas acho que se foi longe de mais. É certo que as pessoas também precisam da compensação do sonho face à frustração da realidade; mas isso sempre assim foi. Todos nós precisamos de sonhar. Se não sonharmos, podemos até enlouquecer. O sonho faz parte da economia da nossa saúde psíquica.

Quem não entender isto, não entende nada do que é o ser humano. Que também haja um espaço de sonhar em que se represente a vida, acho muito bem, é saudável e pedagógico. Cair nesse erro seria o mesmo que fez a falhada televisão da Igreja, pretendendo fazer passar um cristianismo racionalizado, com ares de antiga esquerda pensante, que não seduzia ninguém.

E ainda se passa hoje em programas ditos religiosos, em que as pessoas tanto racionalizam que só lhes falta pedir desculpa pelo que estão a fazer. Falta-lhes coerência de personalidade. Falta-lhes carisma. Não têm nada para comunicar, porque a mensagem é da ordem do afectivo, da ordem do vivido. Depois, queixam-se que os ouvintes não se interessam.

Mas, voltando à ficção e à realidade, tudo isto tem de ser gerido de uma forma equilibrada que não aliene as pessoas. Sonhamos de noite porque vivemos de dia. Mas não podemos encher o dia de fantasias, porque a realidade não espera por nós adormecida e a sonhar.




Notícias relacionadas


Scroll Up