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Corvos… em cima dos telhados….

Em tempo de eleições, com partidos dispersos e políticos assanhados, verifica-se que há um povo a querer nascer, mas foi constantemente adiado, porque, em vez de verdades lhe prégaram meias verdades, fábulas e mitos.

N/D
12 Jan 2005

Em lugar de o libertarem, escravizaram-no cada vez mais…
De mentalidade ainda rural, muitos desenraizaram-se das aldeias e vivem nas cidades em guetos enormes, porque uma construção desenfreada de cabeças de betão lhes quis comer as raizes, vivendo agora encurralados como em comboios sem locomotiva.

Outros ainda, a quem foram vedadas as alegrias dos pioneiros, a dimensão religiosa, a felicidade do camponês, ou mesmo a do sábio, foi-lhes tirada, e vêem-se vítimas de ideologias falsas e idiossincrasias, que não souberam digerir ou julgar.

Em vez de os vestirem, fazia falta alimentá-los e responder a outras necessidades, mas deram-lhe apenas o sabor do luxo e do lixo, como pão envenenado. Assim se criaram de vilãos politiqueiros, técnicos de pacotilha, sem vida interior e vazios de ideias… amorfos. Alguns instruiram-nos, mas não se cultivaram mais.

Formam uma opinião granítica, de cepo agreste, sobre a cultura, pensando que esta se compendia em fórmulas, clichés ou slogans… Por isso esqueceu-se até que, mesmo um bom camponês, sem grande cultura, sabe mais da vida da terra e da aldeia que um filósofo iluminado investido ou revestido da sua sensaboria de politicote.

É grande gesto solidarizar-se com os que sofrem, numa mundialização da compaixão pelas vítimas, mas é mais importante curar os doentes, com as suas mazelas, à nossa porta, como evitar as guerras de expansão e de palavras, que destroem por vezes o que queremos favorecer, embora o sangue possa vivificar e robustecer uma raça.

Nem sempre a vitória é sinal de conquista, porque muitos se instalaram num mundo de cimento ou de trincheiras, donde desferem os golpes mais dolorosos, que sangram o que deveriam cicatrizar. A guerra, mesmo de palavras, engana-nos…

E o ódio nada adianta relativamente à exaltação da corrida. Se é bom que as civilizações ou as ideias se oponham para favorecer novas sínteses, é monstruoso que se digladiem e belisquem uns aos outros…, esquecendo o objectivo que nos une.

Até o humilde pastor, como diz Saint Exupery, que vela modestamente pelas sua ovelhas debaixo de um céu estrelado, está consciente do seu papel de sentinela. O mais simples trabalho é o segredo de êxito do conjunto e responsável pela elevação do universo.

Só quando tomarmos consciência do nosso papel, mesmo o mais humilde e apagado, é que seremos felizes. Então poderemos morrer em paz, pois o que dá sentido à vida, dá também sentido à morte. Tudo se processa como numa herança de transmissão de pais para filhos.

Por isso, a morte da mãe ou de um pai é anunciada pelo mesmo campanário e nunca aparece carregada de desespero, mas de uma alegria discreta e tenra. A mesma voz que anuncia os funerais e os baptismos nunca é índice de desespero, mas pode significar apenas a passagem de uma geração à outra, que se continua, como num dia de aliança matrimonial toca festivamente com o seu som branco, ou menos branco…

Será mesmo que cristãos e pastores entendem estes sinais e simbolos, na confusão de hoje?

A vida é sempre continuada, mas nem sempre se toma consciência disso, como património espiritual recebido e se resume em tradições, conceitos e mitos, que constituem toda a diferença que separa um Newton ou um Camões do bruto das cavernas…

De uma lava em fusão de escombros devassados pelas águas, ou da carcaça de barcos fundidos de glória, todos somos convidados a escrever hinos, madrigais ou cantatas gloriosas, elevando-nos até daqueles que criticamos ou chorámos. Não será disto que precisamos em tempo de frustrações?

Sempre me impressionou sermos um país de literatos, mas com um povo sem saber fazer as leituras, ou a ler em travesti. Por isso enobrecemos as misérias e deixaram cair as glórias, enaltecendo alguns as catacumbas em tempos de pregar à luz e nos telhados.

Talvez por isso pretenderam ou calaram-se os pastores nas igrejas… Por culpa de quem? Pastores incómodos a falar contra certos gostos e gastos… porém atentos aos pastos insalubres.

Mas, com doutrinas de catacumbas, nem conseguiremos desenterrar mortos, talvez encobrir ainda mais os vivos, com as veleidades de certo pensamento, que deixou de ser meridiano e brilha apenas no meio dia, sem se ver na escuridão como os corvos, mas com luz emprestada.

Todavia não convence ninguém, porque a maior parte vive ainda e gosta da sombra e das trevas… Quando virá a solicitude e coragem de Políticos, que sejam também Pastores?!…




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