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O IP4, esse território autónomo

Gabavam-se antigamente as autoridades comunistas chinesas de que a Grande Muralha da China era visível do Espaço.Hoje sabe-se que não; tratava-se apenas de um exagero patriótico para rivalizar com os feitos aeroespaciais dos EUA e da URSS.

N/D
11 Jan 2005

1A pequena muralha do Marão

Gabavam-se antigamente as autoridades comunistas chinesas de que a Grande Muralha da China era visível do Espaço.Hoje sabe-se que não; tratava-se apenas de um exagero patriótico para rivalizar com os feitos aeroespaciais dos EUA e da URSS.

Uma das razões porque não se via era o facto de a muralha estar mal iluminada. Daí que o que se vai agora de certeza passar a poder ver do Espaço são os 16 quilómetros de separador central com mequinhos reflectores, recentemente instalado na subida de Amarante para o alto do Marão, no asfalto do Itinerário Principal n.º 4 (ou IP4).

Obra-prima da inventividade nacional, aí estão eles para rivalizar no futuro com as outras sete, agora oito, maravilhas do Mundo (ou até nove, se contarmos com a Casa da Música). Na pior das hipóteses, vão servir para Portugal entrar para o Livro Guiness de Recordes.

O IP4 já tinha um traço contínuo de 11,5+5 kms; mas à cautela (e porque nisto do Guiness é preciso estar prevenido) a nossa candidatura ficou garantida agora, com os mequinhos em cima do dito traço contínuo, milhares deles. Quem os terá vendido?

Quem se terá lembrado? Quem terá autorizado? Aquele território autónomo e semi-independente, o IP4, parece ser uma coutada particular de alguns “lobbies” muito esclarecidos, cujo porta-voz tem sido um tal snr. Bastos.

Adivinho entre esses “lobbies” o dos construtores de uma auto-estrada alternativa ao IP4 (as portagens hão-de ser baratas…). Ou o “lobby” dos condutores transmontanos de estradas municipais (avêssos a ultrapassar ou a deixar os outros ultrapassar, os 70 à hora).

Ou o “lobby” das avozinhas assustadas (que apesar de não saberem conduzir, se acham no direito de alvitrar acerca do IP4). E o “lobby” daqueles que têm alguma espécie de interesse em manter Trás-os-Montes afastado do progresso e dos contactos fáceis com o litoral.

2. Como resultado, o número de mortos no IP4 triplicou

Desde Abril de 2003, passou a ser proibido ultrapassar nos 17 kms de descida do alto do Marão para Amarante. Em meados de Dezembro de 2004, soube-se que o número de mortes anuais subiu, em todo o IP4, de 13 (em 2003) para cerca de 40 (em 2004). Nem todas foram, é certo, naquele troço.

“Apenas” 14; mais uma, pois, que o total de todo o IP4 em 2003… Porém, é natural que para compensar o tempo perdido nas bichas do Marão (e o “stress” daí decorrente), os condutores tenham tido tendência para desnecessários comportamentos de risco.

Alguns desses comportamentos de risco (e isto é importante!) poderão até ser pura consequência da discordância radical de não poucos condutores em relação às cada vez mais exasperantes limitações à fluidez do trânsito naquela via perfeitamente segura, o IP4.

Partem esses condutores do princípio de que, se as autoridades abusam do seu poder em alguns troços daquela “coutada”, perdem legitimidade moral, perdem credibilidade para regular os remanescentes troços da via. E vai daí, toca a desrespeitar o Código da Estrada desde que não haja vigilância.

A Lei não é por eles interiorizada (como devia) e tem lugar a desmoralização, a vingança, o “salve-se quem puder”.

3. Antes, os pesados encostavam à berma para permitir a ultrapassagem

Desde que, em Abril de 2003, foram eliminados os seis ou sete troços daquela descida nos quais se podia com perfeita segurança ultrapassar (e se criaram os tais 11+5 kms de traço contínuo) os pesados que então seguissem muito devagar, encostavam à berma sem diminuir a sua velocidade.

E num acto de solidariedade, inteligência e civismo, permitiam que o trânsito lá fosse fluindo, ainda que apenas a 60 ou 70 à hora.

Com a introdução da fileira cerrada dos mequinhos, tal manobra, antes frequente, tornou-se totalmente impossível, pois já não há espaço. E assim, se um camião TIR (por causa dos travões sobreaquecidos) ou um qualquer ligeiro (conduzido por condutor caprichoso, ressabiado, incapaz ou sem civismo) se puserem a guiar por aí abaixo os seus veículos a 20 ou 30 à hora, ninguém os vai poder ultrapassar, quanto mais punir…

4. E as ambulâncias?

Imagine-se agora uma situação deste último tipo, que logo provoca a formação de uma fila de vinte ou trinta carros em marcha muito lenta. E vem uma ambulância que quer passar (que queria!). Uma das muitas ambulâncias que transportam diariamente doentes graves de qualquer ponto de Trás-os-Montes para os hospitais do Porto. Não passa…

Uma demora exasperante de 15 ou 20 minutos que até pode custar a vida a qualquer doente.

5. Já houve quem sugerisse um separador de betão!

Esquecendo a necessidade premente evidenciada no n.º anterior deste artigo (o n.º 4), ou casos similares (partos, perseguições policiais, idas ao aeroporto, outras urgências de cumprimento de horários, etc.), gente há em Trás-os-Montes que propõe até que o separador central seja em cimento! Diria eu então que eles não devem ficar por aí…

Que instalem altas lombas de plástico de 20 em 20 metros, por exemplo. Ou até que mandem de vez fechar o “perigoso” IP4 e que se volte à velha e enjoativa estrada das curvas do Marão. Ou aos caminhos de cabras.

6. Almocreves, precisam-se

A facilidade com que a Demagogia associada à pretensa “perigosidade” do IP4 é acolhida nos órgãos de comunicação (e entre largas franjas não esclarecidas da população) é deveras preocupante.

E é um “barómetro” adequado para avaliar o sentido crítico do nosso povo e dos seus guias de opinião. Como é que alguém pode esperar que havendo estradas não haja acidentes e mortos? E quando houver auto-estrada no Marão, passando os condutores a andar a 120 ou 150, não vai haver ainda mais?

E no IP4 actual, o valor essencialíssimo da fluidez geral do trânsito não deve ser levado em conta? Ao contrário de todas as outras estradas do Mundo? Pois é, este nosso País não precisa de “um Salazar em cada esquina” como alvitram alguns perdulários.

Não é preciso tanto, pelo jeito em que as coisas estão. Não dramatizemos. Bastam-lhe apenas dois ou três almocreves, dois ou três azeméis, dois ou três tropeiros. Na condição de um deles ficar encarregado de superintender no IP4, sobretudo no troço Amarante-alto do Marão…

NR: O último artigo de Eduardo Tomás Alves, intitulado “PSD retribui aquele favor de Guterres a Barroso”, continha algumas gralhas, que agora corrigimos: no primeiro ponto, onde se lê “Democracia iniciativa” , deve ler-se “Democracia iniciática”; no ponto dois, onde se lê “12 ministros”, deve ler-se “1.os ministros”; no ponto três, onde se lê “sociedade”, deve ler-se “saciedade”.

Ao articulista e aos nossos leitores, apresentamos desculpas.




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