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Ainda podemos acreditar

Sempre fomos um povo de bom coração e consciência bem formada e vamos mostrar, mais uma vez, que somos mesmo assim, que reagimos por convicções profundas e não por impulsos de ocasião

N/D
10 Jan 2005

A onda gigante (tsunami) que enlutou a Ásia, melhor dizendo, que cobriu de dor e luto todo o mundo, teve uma virtude: despertou as consciências para a solidariedade, mesmo naqueles povos que sempre nos parecem mais frios, mais egoístas, mais distantes do calor do coração.
Foi com enorme satisfação pessoal, e reforço na crença de que o mundo ainda não perdeu de todo os valores de amor ao próximo, que analisamos hoje a ajuda mundial que se organizou em onda gigante para abafar a outra onda, a assassina. O mundo ainda não corre o risco de Sodoma ou de Gomorra.

Deus não precisa de baixar o número dos justos para poupar os restantes habitantes da Terra. O planeta ainda tem valores suficientes para se salvar por si mesmo ou se regenerar, se for caso disso.

Há ainda nestes tempos em que todos diziam campear o egoísmo, ou o domínio do interesse individual sobre o colectivo, quem tenha arrepios de consciência e esteja predisposto a contribuir para melhorar as situações precárias e de subsistência dos martirizados povos do Sri Lanka, da Índia, da Indonésia, isto para referirmos apenas os mais atingidos.

Continuam a impressionar os salvamentos de pessoas, crianças ou mesmo bebés que, salvos das águas como Moisés, andaram em cima de frágeis salva-vidas, pequenos destroços à deriva, troncos de árvores, colchões de praia, – admiremo-nos! – e conseguiram sobreviver a tamanho morticínio.

Mas como não há bela sem senão, ou rosa sem espinhos, chegou a notícia monstruosa do aproveitamento de indivíduos que, em nome pessoal ou integrados em redes de pedofilia, se aproveitaram das circunstâncias para raptarem inocentes para os seus tétricos fins.

Uma nódoa neste pano limpo, um espinho cravado nos corações de todos os que choram em uníssono esta enorme tragédia do Índico. Infelizmente o mesmo aconteceu em 1755, no terramoto de Lisboa e no maremoto que do Tejo saiu para matar milhares de pessoas que corriam, em desespero de salvação, em direcção ao rio.

Dizem as crónicas da época que em Lisboa pereceram, ou ficaram feridas, cerca de 12 mil pessoas. Eram 9h30 quando a terra começou a tremer e, enquanto as casas ardiam ou desabavam sobre as ruas arrastando bens e pessoas em pânico, magotes de criminosos, evadidos de cadeias, abertas pelo derribar das paredes, também roubavam e estupravam numa manifestação animalesca: crimes, sem outro nome ou qualificação.

Mas passaram-se 250 anos desde então e se em 1755 ainda poderíamos adiantar, como atenuantes da conduta individual, o atraso social e moral da sociedade portuguesa de então, hoje esse argumento seria falso como um sofisma se o quiséssemos atribuir aos aproveitadores da tragédia da Ásia.

Felizmente, estes serão a excepção e os restantes são a regra. Portugal associou-se a este grande movimento de solidariedade mundial. Sinceramente, chegamos a temer que assim não fosse e pareceu-nos que houve uma reacção tardia, embora, no presente, me satisfaça pelo que se está agora a tentar fazer.

Estão empenhados o Governo e as organizações não-governamentais (ONG’s) e, acima de tudo, as televisões; estas, pelo poder de audiência que têm, e aquelas, pelo prestígio que usufruem, dão um enorme impulso a esta cadeia de solidariedade.

Sempre fomos um povo de bom coração e consciência bem formada e vamos mostrar, mais uma vez, que somos mesmo assim, que reagimos por convicções profundas e não por impulsos de ocasião; vamos demonstrar que os nossos ditames são os do humanismo puro, isto é, humanismo que funde o tu e o eu no nós.




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