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Pela imprensa estrangeira

Vamos ver o que somos capazes de fazer para que o futuro nos torne dignos de sermos obreiros da História na qual, sem especial ruído, nos inserimos

N/D
9 Jan 2005

Pelo que se depreende da generalidade da imprensa estrangeira – e nacional – há temas que vão constituir análises diversas nos próximos tempos e mesmo durante meses e até anos.
Desde logo, um grande tema será enterrar os mortos e cuidar dos vivos do maremoto de 26 de Dezembro de 2004. Este assunto tocar-nos-á de perto, já que o maremoto atingiu vários países africanos e asiáticos por onde andaram os nossos maiores que em perigos e guerras esforçados / mais do que prometia a força humana / passaram ainda além da Taprobana, isto é, além do Sri Lanka, além do Ceilão.

Naturalmente que um assunto que vai ser objecto de muitas referências será a União Europeia (UE) e os países da UE, os novos países que foram integrados na UE e os países cuja integração está a ser estudada, designadamente a Turquia, com toda a sua especificidade, com os problemas dos curdos, de Chipre, com os problemas religiosos e outros.

A adesão da Turquia é tão específica que Jacques Chirac, na tradicional mensagem de Ano Novo e dizendo que a França fará o referendo para ratificar a Constituição europeia até ao próximo Verão, evitou toda a referência à recente polémica francesa sobre a conveniência de abrir negociações com a Turquia tendo em vista uma futura integração (EI País, 2 de Janeiro).

Mais adiante se transcreve o pensamento de Jacques Chirac: aprovando a constituição europeia, fareis com que a UE seja capaz de progressos sociais e económicos mais rápidos.

No Le Monde-dossiers et documents deste ano pergunta-se: Turquia, nova fronteira da Europa? E quais são os turcos que batem à porta da União Europeia depois de muitas décadas? O debate está aberto entre os 25 e em particular em França, sobre este país na charneira da Europa e do espaço árabe-muçulmano e a história, ao mesmo tempo, europeia e asiática.

O futuro da Palestina e de Israel ocupará a atenção dos jornalistas durante os próximos tempos: eleições e ocupação da Palestina – uma das incógnitas abertas pelo desaparecimento do líder palestino Yasser Arafat – a eleição do novo presidente da Autoridade Nacional Palestina terá a sua resposta no próximo domingo (EI País, 2 de Janeiro).

O que será a evolução da Ucrânia e de outros países de Leste após a eleição de Victor Iuchtchenko que, segundo refere Christophe Chatelôt em Le Monde (4 de Janeiro), tem à sua frente a difícil tarefa de reforma de um regime corrupto. Na verdade, para concretizar as promessas da revolução laranja, o novo Chefe de Estado terá de atingir as elites pró-soviéticas e adoptar medidas económicas impopulares.

A globalização da economia vai ocupar várias considerações, desde logo pela consequente invasão dos produtos asiáticos que, porque mais baratos, serão mais acessíveis às bolsas dos consumidores europeus.

Enfim, o desenvolvimento cada vez maior do conceito de Homem como cidadão universal, tema que leva os responsáveis do Vaticano e o próprio João Paulo II a expressar que os desígnios de Deus são insondáveis, mesmo no que respeita à compreensão do maremoto de 26 de Dezembro. E o Cardeal Martini diz: devemos demonstrar a nossa capacidade de sermos solidários, é uma lição de humildade (Corriere della Sera, 2 de Janeiro).

A este propósito, no Le Monde de 4 de Janeiro diz-se: Tragédia Europeia – As destruições provocadas pela gigantesca maré que atingiu o Sul da Ásia, a 26 de Dezembro, suscitaram no mundo ocidental um grau de solidariedade de amplitude sem precedente.

No entanto, a firmeza da crença em Deus vinda do Vaticano e que o maremoto não abalou, a mesma crença manifestada por monges budistas das regiões afectadas, não deixou de atingir a convicção do Arcebispo de Canterbury (The Mail, 2 de Janeiro). Diz o Arcebispo: isto apresenta-me algumas questões acerca da existência de Deus. O autor do artigo de opinião onde se faz referência às palavras do Arcebispo diz: se isto é um acto de Deus o que é que Deus está pensando?

E mais abaixo diz: Depois do terramoto de 1755 que matou mais de 50.000 pessoas, Voltaire perguntou: qual é o Deus que permite que tal aconteça?

Vamos vendo o que os homens e a natureza nos irão trazer durante os próximos meses, já determinado mas não deterministicamente, conforme sintetizava, em 1966, um colega da Faculdade de Filosofia, o brasileiro Diderot, depois de algumas discussões sobre o saber divino, liberdade humana e determinismo.

Vamos ver mas sobretudo vamos ver o que somos capazes de fazer para que o futuro nos torne dignos de sermos obreiros da História na qual, sem especial ruído, nos inserimos.




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