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O parlamento e o cabeleireiro

Resta agora esperar que nenhum cabeleireiro se lembre de dizer que o seu local de trabalho não é o parlamento

N/D
9 Jan 2005

Por Deus, isto não é o cabeleireiro», afirmou, na quinta-feira, José Magalhães, o ex-deputado comunista que é, actualmente, deputado socialista. O “isto” tão pouco reverencial a que, segundo o “Público” de sexta-feira, José Magalhães se referia era nada mais nada menos do que a Assembleia da República.

O deputado resolveu dizer que “aquilo” não era o cabeleireiro numa ocasião em que perorava sobre uma não ida da minis-tra da Educação ao parlamento. O jornal, contudo, não explicava as razões por que, independentemente do acerto ou desacerto da crítica à ministra, José Magalhães pretendeu que não se confundisse o parlamento com o cabeleireiro.

O jornal também não identificava “o” cabeleireiro que, segundo José Magalhães, o parlamento não era, embora se possa perfeitamente supor que o deputado tenha usado o artigo definido como quem usa um artigo indefinido na acepção de um qualquer.

É, evidentemente, apreciável que um deputado – um deputado de qualquer partido político – não queira que a Assembleia da República se possa confundir com qualquer outro local de trabalho. O esforço de José Magalhães devia, por isso, ter encontrado seguidores. Se assim tivesse sido, ter-se-ia podido ouvir outros deputados dizer: «isto não é o chapeiro», «isto não é a farmácia», «isto não é a loja chinesa», «isto não é o McDonald’s», «isto não é o Prós e Contras» ou «isto não é a Quadratura do Círculo».

Assim, ficou-se apenas a saber que o parlamento não é “o” cabeleireiro ou, se se quiser, “um” cabeleireiro.

Sendo óbvio que um parlamento não é um cabeleireiro, teria valido a pena indagar se, por um lado, um cabeleireiro é exactamente o ramo de actividade mais afastado daquilo que um parlamento deve ser e se, por outro lado, há alguma espécie de consenso parlamentar (ou até um acordo de regime) que permita que o parlamento subscreva a tese que sustenta que, se há algo que “aquilo” não é, tal é um cabeleireiro.

E também teria sido útil apurar se, quando José Magalhães disse que o parlamento não é o cabeleireiro, expressava uma opinião pessoal, a opinião do grupo parlamentar socialista ou uma opinião que se pretendia consensual.

Será que o presidente do PSD também considera que a Assembleia da República não é o cabeleireiro? Terá sido por achar que o parlamento não é um sítio onde as senhoras supostamente gostam de ir que Pedro Santana Lopes evitou a inclusão de um número razoável de mulheres nas listas de candidatos a deputados? É que, recorde-se, ainda ontem os jornais falavam da imensa polémica a propósito da fraca presença do sexo feminino nas listas do PSD (se o PSD elegesse os mesmos 105 deputados, só elegeria dez mulheres).

Segundo o “Diário de Notícias”, a situação foi mesmo considerada por Teresa Morais, por enquanto vice-presidente da bancada social-democrata, como «um retrocesso a um nível que é profundamente lamentável e verdadeiramente vergonhoso».

Teresa Morais acaba de recusar ir em 17.º lugar na lista de candidatos pelo círculo eleitoral de Lisboa por considerar que tal era incompatível com o trabalho que desenvolveu e Adriana Aguiar Branco, uma outra ainda deputada do PSD, lamentou, também em declarações prestadas ao “Diário de Notícias”, o retrocesso que as listas representavam, criticando ainda o processo de escolha dos candidatos, em que, como acusou, «impera o amiguismo», não se escolhendo os mais competentes. «É a lei da selva», disse ela.

Agora que está praticamente finalizado o intensíssimo trabalho que permitiu apresentar as listas de candidatos a deputados que se conhecem – ou, para usar as palavras de Adriana Aguiar Branco, impor a “lei da selva” – valia a pena saber qual é, para os possíveis futuros deputados, o principal ramo de actividade que o parlamento não deve ser.

Havendo não pouca gente que confunde a actividade do parlamento com a actividade de uma feira, de uma dependência de um escritório de advogados, de um departamento de recepção de cunhas, de uma delegação de uma autarquia local, de um centro de emprego para amanuenses partidários, de um balcão de recados ou de uma agência de promoção pessoal, talvez, afinal, não seja realmente grave haver quem se sinta incapaz de distinguir um parlamento de um cabeleireiro.

E, no meio de tudo isto, resta agora esperar que nenhum cabeleireiro se lembre de dizer que o seu local de trabalho não é o parlamento.




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