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A invasão chinesa

As lojas chinesas invadiram a cidade de Braga e não só. Já não são os típicos restaurantes com a sua comida exótica a chamar as clientelas mais afoitas a outros paladares. São as lojas de tem-tudo, desde os barretes, bonés e gorros até ao relógio barato de imitação duvidosa. E a gente está lá, feita cliente de pechinchas.

N/D
8 Jan 2005

Tudo aquilo é pechisbeque. Mas os clientes aparecem e saem de lá satisfeitos e muito convencidos de que fizeram um óptimo negócio. E fizeram? Sim ou não? Sim para aqueles que apostam na aparência do fogo de artifício. Duram pouco, é certo. E sobrará sempre o argumento de que se não prestam por aí além, também pouco custaram – è esta, aliás, a ideia do negócio da esferográfica: acabou-se deita-se fora.
E sabemos como esta mentalidade de esferográfica rendeu e rende milhões. Mas este comércio chinês, que ora se nota, é a primeira linha avançada porque a grande invasão está para vir. Agora que foi liberalizado o comércio internacional na zona euro, com o fim das quotas de importação e políticas de taxas alfandegária, um verdadeiro tsunami vai varrer o nosso comércio e a nossa indústria.

Vão ser capazes de por à venda roupas e calçado a preços baixíssimos. Isto não pode servir para sossegar quem quer que seja. Eles vivem da imitação e baixos custos de produção. O cliente português quer coisas que possam comprar. Uma loja que vende roupas baratas, de fabrico espanhol, vende tudo o que tem para vender. Ela cheia, as outras às moscas. Uma boa peça de roupa custa os olhos da cara e, às vezes, na estação seguinte, está fora de moda, ultrapassada pela nova colecção.

Se fosse barata não custaria tanto substituí-la. Não sei se não chegou a hora dos industriais e comerciantes olharem para os chineses como técnicos de confecção e vendas. A crise de vendas que atravessaram nesta quadra natalícia não se deve apenas à crise económica portuguesa, deve-se também à concorrência dessas lojas de conveniências.

São horas de seguirem o velho conselho que diz, se não podes vencer o castelo constrói outro ao lado. Parece-nos que o comércio e a indústria tradicionais deveria começar a pensar na diversificação da oferta, dando ao público aquilo que ele pode comprar. Nem todos os dias são dias santos para roupa boa.

Os próprios chineses devem estar espantados como ainda não surgiu uma reação imediata do comércio e indústrias portuguesas; talvez em segredo, tenham dito uns para os outros: estes portugueses são mesmo bonzinhos. É evidente que não apelamos para uma guerra aberta a quem sabe fazer pela vida, isto não é um apelo a qualquer boicote ao negócio chinês; o que exortamos os nossos é que entrem em competição, que se deixem de velhos métodos e processos, que estudem e vejam como evolui o mercado nacional. Competir é um jogo e, num mercado aberto com características mundiais em que estamos, isto significa combater com as mesmas armas.

Não há outros segredos. Quem não procura o queijo morre de fome sempre que o queijo muda de lugar. A propósito disto, recomendo a todos os comerciantes e indústriais que leiam, Quem Mexeu No Meu Queijo?, de Dr. Spencer Johnson. É um livro sábio em estratégia económica, tão fácil de entender que qualquer um o lerá dum fôlego. Vão ver que vale a pena.




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