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Deus não é nenhum guardador de cabras

O terramoto de 1755 influenciou a cultura europeia do século XVIII. Voltaire e Rousseau, figuras destacadas do Iluminismo, envolveram-se em acesas controversas acerca das implicações filosóficas deste cataclismo.

N/D
7 Jan 2005

Rousseau era católico, Voltaire ateu. Por isso, até depois de morto, atado ao assento de um coche, teve de ser retirado de Paris para que o seu cadáver não fosse profanado.
Pergunta mesmo onde estava esse Deus quando as ondas do Tejo subiam vertiginosamente até ao Rossio, afogando numa corrida louca quantas almas inocentes encontrara pelo caminho.

«Afinal foi esse Deus, dotado de poder e justiça que ordenou semelhante holocausto?», pergunta Voltaire num longo poema, grito de dor, dada a vaga de destruição tão alarmante. Parecia avizinhar-se o fim do mundo.

Mas embora sabendo mais do que o comum do homem, nasceram também eles limitados para conhecerem a eventual vida post mortem. Até Fernando Pessoa, poeta filósofo, dizia que a inteligência não pode conhecer o que está para além do mundo.

Os filósofos franceses que se distinguiram na Revolução Monárquica do século XVII, que veio contestar e fragilizar o poder divino dos reis, a que se seguiu a Revolução Francesa ou Revolução Liberal de 1789, fruto também da acção dos escritores e filósofos enciclopedistas, prestaram um bom serviço ao homem que desde que o mundo é mundo vivia acorrentado.

A partir do século das luzes assiste-se a um desenvolvimento social e cultural em liberdade, sustentado por um crescimento económico nunca antes visto, compensando longos anos de atraso e obscurantismo e que continuará a crescer até à Primeira Guerra Mundial de 1914/1918.

A máquina a vapor revolucionou a economia diminuindo as dis-tâncias entre povos. As novas tecnologias, a ciência, são surpresas do mundo que se seguiu. Longe de pensarem os nossos antepassados, mesmo os que viveram ainda em princípios do século vinte, que seria possível poisar pé na Lua, atingir o Brasil em seis horas de voo, ter esperança de vida já à volta dos oitenta anos.

O índice de mortalidade infantil foi baixando, através de vacinas e outros recursos médicos. O recurso a sofisticados exames médicos que previnem doenças do foro cardíaco e vascular, e não só, foi quase um milagre.

Mas todo este avanço é obra do homem. E, por isso, tudo que se passa no planeta Terra não é da responsabilidade de Deus. Todos os avanços e recuos têm de ser explicados à luz do ser humano e da natureza.

Era chique, no século das luzes, os intelectuais, a começar pelos filósofos enciclopedistas, assumirem-se ateus uns, deístas e agnósticos outros, culpabilizando Deus por todo o mal que acontece à humanidade. Nesse século, foi tal o ataque dos filósofos às religiões cristãs que chegou a adivinhar-se o seu fim próximo.

Os anos passaram e o número de fiéis aumentou.

Este chiquismo vem já dos nossos escritores da geração de 70. Com o comboio directo entre Paris e Coimbra, as novas teses dos filósofos franceses, ingleses e alemães, galgavam os Pirenéus e eram logo devoradas por essa elite da qual se destacavam Eça, Ramalho Ortigão, Antero, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Camilo Castelo Branco, entre outros.

O mundo do animal irracional deslumbra na sua luta por alimentos e segurança e pelo cuidado esmerado que têm os pais de suas crias. Tem de haver um autor que só pode ser um Deus, cuja natureza se desconhece em toda a dimensão. Sem a ideia de um Deus a vida é na verdade absurda.

Disso se queixa Virgílio Ferreira, romancista filosófico. Interrogava-se ele sobre «o espantoso milagre em estar vivo e o incrível absurdo da morte» (Aparição). Em “Mudança”, diz: «Se o Homem é apenas um “ser para-a-morte”, se dele depois nada fica, não será a vida um absurdo?».

«Quem sou eu, que estou cá a fazer?» O problema existencial afectou as gerações dos anos cinquenta. Horror à morte também tinha o nosso Miguel Torga. Sentia-a como um cilício que o apertava a todo o momento.

E Antero chorou quando jovem começou a sentir falta do Deus que conhecera na infância e princípios da adolescência. Talvez, por isso, pôs termo à vida, depois de ter encontrado mão segura para as suas pupilas. Florbela Espanca tanto se queixava por não encontrar Deus que tanta falta lhe fazia.

Claro que sem Deus a vida é absurda e a morte um horror. Mas o homem se não pode cientificamente provar Deus, também não pode afirmar a sua inexistência. Nasceu limitado. Daí não ser legítimo culpabilizá-lo por tudo que de mal lhe acontece, sobretudo os ateus porque o negam.

A ser assim teria também de ser responsabilizado pelas mortes em série de crianças antes de se descobrirem vacinas que vieram diminuir apreciavelmente o índice de mortalidade. Do mesmo modo seria culpa de Deus o homem do passado ter uma esperança de vida de menos de metade do homem de hoje, só porque não tinha acesso aos cuidados médicos das gerações futuras.

Deus não pode confundir-se com o guardador de cabras à sua guarda. A catástrofe que ensombrou o fim do ano no Sudeste Asiático também não lhe pode ser atribuída, porque tal nunca teria a mesma dimensão se acontecesse na costa da América do Norte ou mesmo na costa da Europa Ocidental.

Por isso não pode haver um Deus menor para os pobres e um outro todo-poderoso para os ricos. Hoje já há meios científicos que prevêem com certa antecedência tais cataclismos.

Daí impor-se a solidariedade dos países de grande prosperidade para com os países onde as crianças morrem de segundo a segundo por falta de água e leite. Deixemos Deus em paz e vamos lutar para que diminua o fosso entre países de abundância e países atrasados porque vivem ainda acorrentados.

Quando muito em sistemas democráticos de fachada, só para inglês ver.




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