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Tsunami de solidariedade

Depois da onda avassaladora que varreu as costas índicas de vários países do Sudeste asiático, espalhando a morte, doença, destruição, terror e angústia a milhares e milhares de seres humanos, eis que uma outra vaga, igualmente de enormes proporções, mas de natureza diametralmente oposta, se formou por todo o mundo para levar a solidariedade, a ajuda e a esperança a todos quantos sofreram e sofrem ainda a tragédia de um dos mais terríveis maremotos de que há memória na história da humanidade.

N/D
6 Jan 2005

Na verdade, em tempo recorde, têm afluído às nações martirizadas donativos em dinheiro, medicamentos e víveres que, felizmente, superam as previsões mais optimistas e que, juntamente com o trabalho de tantos voluntários, médicos, enfermeiros e técnicos de protecção civil, oriundos de todos os cantos do planeta, vêm permitindo a salvação e cuidado de muitas vidas e o enterro dos mortos.
Perante este quadro dramático e a pronta resposta que lhe está sendo dada, não pode deixar de se fazer uma pequena reflexão e tirar algumas ilações.

E o primeiro pensamento que nos ocorre é o de que esta catástrofe revela, patentemente, a fragilidade e transitoriedade do Homem e do Mundo, um e outro criados imperfeitamente por um Ser perfeito que, no entanto, dotou a humanidade de dons, virtudes e talentos que lhe permitem melhorar-se a si própria e ao meio que a rodeia e enfrentar a morte e o sofrimento como redentores da vida.

Para nós, cristãos, é justamente a morte, vencida na Cruz, que dá sentido à verdadeira vida.

Por outro lado, não podemos deixar de meditar que é sobretudo nestes momentos de grande tragédia e infortúnio que se manifesta a bondade e até a vocação de santidade do Homem, traduzidas em gestos de ajuda e solidariedade com o próximo.

São precisamente estes actos que atestam bem a centelha divina da origem da humanidade.

Mas convém igualmente recordar o lado pecador e imperfeito do Homem que, mesmo nas circunstâncias mais dramáticas da sua existência terrena, é capaz dos piores actos.

Lembremo-nos, por exemplo, das pilhagens que vêm ocorrendo no cenário da catástrofe, da continuação das guerras civis no Aceh, na Indonésia e no Sri Lanka – que foram das regiões mais afectadas – e na chocante indiferença à tragédia revelada por tantos países e pessoas, incapazes do mais pequeno acto humanitário de auxílio e consolação.

Perante tudo isto, importa desde logo colher o ensinamento prático de que é preciso estar sempre alerta, criar ou melhorar os mecanismos de prevenção e detecção precoce de tsunamis – inexistentes no Índico, como ficou a saber-se -, aperfeiçoar a orgânica e funcionamento da protecção civil e instruir devidamente as pessoas, quer sobre os comportamentos a observar em casos semelhantes ao que agora ocorreu quer sobre a necessidade de preservar a natureza e o ambiente.

Mas importa, também, desenvolver e reforçar, a todos os níveis, os mecanismos e instituições de solidariedade e fazer pela palavra, mas sobretudo pelos actos, a pedagogia do bem, da fraternidade e da caridade.

Finalmente, este drama tem a virtualidade de chamar a atenção dos Estados, que correctamente optaram e assumiram a natureza laica, para o dever de fomentar ou proporcionar a formação moral e religiosa aos seus cidadãos, respeitando a liberdade de crença de todos e de cada um deles.

Só entendida desta forma a laicidade estadual permitirá ao Homem a sua formação integral e, consequentemente, a capacidade de compreensão e superação espiritual de tragédias como esta.

Amputando esta dimensão da natureza humana, nenhum Estado poderá cumprir plenamente a missão de contribuir para o bem comum dos seus cidadãos.




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