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A vocação e o seu papel

A verdade do homem está naquilo que faz dele um homem, unindo-se no essencial, esquecendo até as divisões, mesmo opondo-se a verdades evidentes

N/D
5 Jan 2005

Ao inaugurarmos o Novo Ano, é sempre num misto de esperança e de interrogação que o começamos, tal como a criança, que recém-nascida, não sabemos o que vai ser.
Na cadeia dos séculos, somos apenas um elo que toca a terra e nos projecta numa série cósmica, em que a humanidade se vai projectando e desabrochando em transcendência através de cada um de nós. O que é afinal o homem?

Tudo nele, como diz Saint Exupery, é paradoxal. Assegura-se àquele o pão para lhe permitir criar e ele adormece; o conquistador vitorioso amolece; o generoso, se o enriquecem, torna-se ladrão… Que importam as doutrinas políticas que pretendem desabrochar os homens, se não sabemos que tipo de homem vão despertar.

Que vai resultar daí? Nós não somos um gado a ganho ou uma propridade de renda, mas o aparecimento de um Pascal pobre pesa mais fundo do que alguns anónimos prósperos ou ricos. O essencial nunca o podemos prever. E cada um de nós conheceu esfuziantes alegrias, onde ninguém as podia prever. Mesmo das misérias ou desgraças…. alguns fizeram as suas glórias.

A vocação pode explicar muito da nossa história e os seus germes encontram-se na nossa infância. Mas muitos, por falta de um terreno favorável, de uma religião exigente, deixaram-se adormecer sem ter acreditado na sua própria grandeza. Como outros se deixaram apodrecer pela sedução da paisagem ou dos miasmas no terreno a seus pés. Sim, as vocações ajudam o homem a libertar-se, mas é igulmente necessário libertar as vocações…

Apesar de diferentes, mas sintonizando nos mesmos ideais e objectivos, uns deixaram-se seduzir pelo ambiente, como outros procuraram dessedentar a sua sede noutras fontes, talvez inquinadas e até mais perigosas… Mas, na consciência do perigo, acicataram dentro de si reservas, que potencializaram até ao infinito, aí mostrando a força e originalidade das suas opções. Nessa ânsia de fraternidade uniram-se alguns pelo amor, cuja experiência nos mostra que “amar não é apenas olhar um ao outro, mas olhar juntos na mesma direcção”.

Não há camaradagem a não ser unidos no mesmo comprimento de onda, voltados para o mesmo ponto alto! Mesmo nas desgraças tornamo-nos companheiros de jornada…

Para todos aqueles que experimentaram uma grande alegria depois de um grande acidente, todos os outros prazeres tornaram-se fúteis. Talvez por isso o mundo de hoje começa a desmoronar-se aos nossos pés, e tantos exaltam-se em fanatismos de religiões ou de políticas, que prometem esta plenitude. Todos exprimem os mesmos elans e objectivos. Mas dividimo-nos muito sobre os métodos que são fruto de raciocínios, não dos objectivos, que são os mesmos.

A verdade está no homem que desperta em cada circunstância, descobrindo-se a si e despertando sempre novas luzes e forças. E o autor de Terre des Hommes diz mesmo:”se quereis convencer alguém do horror da guerra áquele que não a recusa, não o trateis por bárbaro: tentai compreendê-lo antes de o julgardes”.

A verdade do homem está naquilo que faz dele um homem, unindo-se no essencial, esquecendo até as divisões, mesmo opondo-se a verdades evidentes. A verdade é o que simplifica o homem, nunca o que o complica ou cria o caos. Mas também não é o que se demonstra, é o que simplifica. Porquê discutir as ideologias? Se todas se demonstram, todas também se opõem, e tais discussões fazem desesperar da salvação do homem. E este, em todo o lado, experimenta as mesmas necessidades.

A desgraça não está nos golpes do alvião que são dados na terra. Não há horror material. O degredo reside lá onde os golpes são dados sem sentido, que não ligam mais aquele que os dá à comunidade dos homens…

E nós queremos libertar-nos do degredo. Por isso há muitos metidos nas engrenagens de profissões como outros de ideologias, ou de hipotecas em surdina, mas todos procuram nascer e libertar-se. Pode-se animar os homens, vestindo-os de uniformes, mas são soluções, que enganam. Ganharão até o gosto do universal, mas do ganha-pão de que se alimentam, podem até asfixiar. Podem-se inebriar os alemães com a figura de um Beethoven, como se pode até sujá-los com um Hitler… Mas isso é mais fácil do que de um carcereiro sair um Beethoven.

Tais ídolos contudo podem ser carnívoros. Mas só aquele que morre pelo progresso da ciência ou da vida, serve a vida, enquanto ele morre aos poucos.

Sim! e nós, onde estamos?!…




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