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A Nova Zelândia e o complexo imperial russo

A vitória de Viktor Iuschenko nas eleições presidenciais na Ucrânia ajuda a Rússia a libertar-se do “complexo imperial” para com as ex-repúblicas soviéticas – declarou na terça-feira o economista russo Andriei Illarionov.

N/D
4 Jan 2005

“As consequências económicas e políticas desta vitória são importantes para a Rússia não apenas numa perspectiva de curto prazo, mas igualmente de médio e longo prazo” – disse Illarionov numa conferência de imprensa em Moscovo.
“A Rússia só vai poder transformar-se num estado moderno, democrático e em desenvolvimento dinâmico, quando deixar de ser formal e informalmente um império. Deste ponto de vista, a Ucrânia é o parceiro mais importante da Rússia, pois a situação na Ucrânia funcionará sempre como teste do «complexo imperial» da Rússia. Ao votar em Iuschenko, o eleitorado ucraniano ajudou, não apenas a si próprio, mas igualmente aos russos” – sublinhou.

Andriei Illarionov está entre os consultores do presidente russo Vladimir Putin para os assuntos económicos. É conhecido pelas suas declarações com frequência em desacordo com a política oficial do Kremlin. O diagnóstico que traça aqui, é não apenas extremamente lúcido e certeiro, mas igualmente raro entre os intelectuais e políticos russos.

Os especialistas russos enviados para Kiev antes do início da campanha eleitoral para preparar a vitória do candidato do poder, o primeiro-ministro Ianukovitch, acabaram por fracassar porque não adivinharam a reacção dos ucranianos, mas na Rússia os métodos que aplicaram teriam tido sucesso.

Não surpreende portanto que a esmagadora maioria dos russos tenha dificuldade em entender aquilo que diz Illarionov, o que surpreende é haver gente na Rússia que aponta o mal russo e a cura, enquanto na Europa são raros aqueles que percebem isto. A propósito da adesão da Ucrânia à UE, o ex-chefe da Comissão Europeia, o italiano Romano Prodi, apressou-se a dizer que esta é tão provável quanto a adesão da Nova Zelândia.

Ivan Dratch, conhecido poeta ucraniano, que durante a perestroika gorbatcheviana foi muito activo na liderança de um importante movimento independentista ucraniano, apelou, nos primeiros dias da “revolução laranja” na Ucrânia, ao apoio dos democratas russos, contra a posição assumida pelo presidente Putin. O apelo provocou a resposta de Ielena Bonner, a viúva do professor Andriei Sacarov – autor da bomba de hidrogénio soviética e líder do movimento de defesa dos direitos do homem na URSS:
“Caro Ivan Dratch, apoio inteiramente aquilo que escreve na sua carta.

Infelizmente, a minha idade e estado de saúde não me permitem juntar-me a vós na praça central de Kiev, mas apesar disso considero todos os participantes da «revolução laranja» combatentes contra uma estrutura estatal assente na mentira, tão característica do estado ucraniano como do russo. Andriei Sacarov dizia que a mentira deveria desaparecer da nossa vida comum. A luta por eleições livres e sem manipulações é a luta mais importante pela verdade na sociedade. Ielena Bonner”.

As declarações da viúva de Sacarov mostram de que lado estão os russos honestos e partidários de princípios e valores que são indispensáveis a qualquer sociedade – seja a russa, a ucraniana ou qualquer outra.

Na Ucrânia aconteceu um fenómeno que tem lugar na vida das nações em momentos muito especiais, algo que pode até nem se repetir em toda a história de um povo, mas que pela intensidade de emoções e sentimentos positivos que reúne, marca por décadas, e mesmo séculos, escolhas posteriores. É para estes momentos especiais que vivem as nações, é deles que tiram a força e coragem para viver os dias que vêm depois, para ultrapassar o desalento e acreditar na solidariedade humana.

Durante os dezassete dias de protestos nas ruas de Kiev, viam-se muitos jovens entre a multidão. Mas aquilo que mais surpreendia era precisamente que, quando estes entoavam a canção rap que dizia: “Juntos somos muitos, não nos vencerão!

Não somos gado, somos os filhos da Ucrânia! Não à manipulação!”, os mais velhos uniam as suas vozes às deles, balançavam-se enquanto eles dançavam e pulavam, numa sincronia que denunciava a tal experiência muito especial de se descobrirem um só povo. Uma experiência que surpreendeu todos, incluindo o próprio Viktor Iuschenko.

Agora resta esperar que esta dignidade descoberta pelos ucranianos lhes dê a força necessária para lutar pelo lugar que lhes pertence na família das nações europeias.

Para já têm o apoio da Polónia, que foi a primeira a reconhecer a independência da Ucrânia em 1991, e que agora também foi a primeira a felicitar oficialmente Iuschenko pela vitória. Entre as nações da “nova Europa” encontrarão também o apoio necessário para realizar as suas aspirações. Mas na “velha Europa” não será tão fácil. Não há muitos políticos que tenham a perspicácia para enxergar a enorme importância daquilo que diz Andriei Illarionov.

Uma Ucrânia liberta da dominação russa é necessária à Rússia. Privados da tentação imperialista, os russos poderão começar finalmente a ocupar-se da construção de um estado democrático, orientado para o bem dos cidadãos e não consagrado a ambições de dominação. E é essa também a Rússia de que a Europa e o mundo precisam, se queremos viver em paz.

Um assunto que nos diz respeito também a nós portugueses, e até por razões adicionais: não só porque em Fátima a Mãe de Deus nos veio falar da Rússia a propósito da paz mundial, mas também porque nos foi dado receber em casa, nos últimos anos, tantos filhos da Ucrânia…




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