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Entre Eça e McLuhan: a dimensão das desgraças

Um terrível maremoto/tsunami, ocorrido em 26 de Dezembro passado, devastou vários países do sudeste asiático e mesmo da costa oriental de África, posicionando-se, pelas piores razões, como sério candidato a acontecimento internacional do ano.

N/D
2 Jan 2005

A dimensão apocalíptica da tragédia (quando escrevo estas linhas, admitem-se 125.000 mortos, na maioria nativos, mas englobando também milhares de turistas de vários países, designadamente da UE) não deixa quase ninguém insensível, tal é a natureza dos testemunhos e imagens transmitidas pelos media.
O impacto, entre nós, da calamidade que envolveu aquelas paragens fez-me reflectir que os acontecimentos assumem hoje uma proporção, um significado, um caudal de emoção bem diverso do que sucedia num passado não muito remoto.

Descontado algum exagero caricatural, afigura-se-me curioso verificar como, por finais do século XIX, o escritor Eça de Queirós (1845-1900) descrevia o impacto das desgraças no provinciano e, na sua perspectiva, ensimesmado Portugal.

Em 20/09/1897, a partir de Paris, Eça publicava um último artigo na Gazeta de Notícias, intitulado “As Catástrofes e as Leis da Emoção” (ver M. Filomena Mónica, Eça de Queirós).

Tinham, entretanto, ocorrido algumas catástrofes: cerca de 300.000 cristãos dizimados na Arménia; nova guerra entre a Grécia e a Turquia; diversos atentados bombistas promovidos pelos anarquistas em Espanha.

Neste artigo, Eça sustenta que a distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som, isto é, as desgraças alheias afiguram-se-nos tanto menos relevantes quanto mais longe nos situamos relativamente ao espaço onde as mesmas se verificam.

Para ilustrar o seu entendimento, Eça relata a leitura de um jornal que, numa pacata vila portuguesa, uma senhora efectua, perante um auditório constituído por mais algumas senhoras, que costuram, e alguns homens, que fumam.

A leitora do jornal, desfilando as desgraças que corriam mundo, refere que um terramoto em Java arrasara 20 aldeias – originado a morte de 2000 pessoas – , o que não suscita qualquer comentário. Prossegue, mencionando que na Hungria um rio extravasara o leito, conduzindo à perda de searas, animais e homens. Uma voz, bocejando, comenta: “que desgraça!”

Depois, a leitora informa que, na Bélgica, da repressão de uma greve pela polícia resultara a morte de algumas crianças, o que suscita que alguém comente: “que horror!… Estas greves! Pobre gente!”

Após mencionar que em França um comboio descarrilara, a leitora, alvoroçada, coloca as mãos na cabeça, soltando um “Santo Deus”, e, gaguejando, revela que a Luísa Carneiro, da rua da Bela Vista, “desmanchara” um pé. Agora, todos os presentes se levantaram. Afundada a tranquilidade do grupo, um criado foi despachado para a casa de Luísa, em busca de notícias mais esclarecedoras.

Eça era um céptico e um sarcástico, desiludido com o país natal – que considerava longe dos verdadeiros padrões civilizacionais – e, de alguma forma, com o mundo. Embora com laços familiares assentes entre a burguesia e a aristocracia, Eça descrê das elites do seu próprio país e para o final da sua vida define-se como “um vago anarquista entristecido” (in Revista Moderna, 15/01/1898).

Ainda que devamos compreender as apreciações de Eça – acerca das emoções que os portugueses, ou os humanos em geral, dispensavam aos seus semelhantes – como resultantes do cepticismo e do humor ácido que correntemente preencheu a sua escrita, não podemos deixar de considerar que as mesmas assumiam alguma pertinência naquela época.

Em finais do século XIX, as notícias corriam mundo pelo comboio, por barco, por telégrafo ou, de forma ainda incipiente, por telefone. Muitas regiões do planeta arrastavam-se, contudo, num considerável isolamento cultural e civilizacional – como aconteceria em grande parte do nosso iletrado país, entendia Eça.

Entretanto, nos últimos anos da vida de Eça, surge a electricidade e depois, já no século XX, difunde-se a rádio. Preparam-se, através destes dois inventos, o caminho para a aldeia global – conceito criado pelo canadiano Marshall McLuhan, há cerca de quarenta anos  – , o qual será deveras ampliado com a televisão, sobretudo com as transmissões em directo, via satélite.

MacLuhan defendia que o mundo estava a ser “retribalizado”, transformando-se numa “aldeia global”, porque o que acontecia na mais recôndita povoação era passível de ser observado, quase em simultâneo, em qualquer outro canto do planeta.

Em Portugal, celebram-se este ano os 250 anos sobre o terrível terramoto de 1755. Então, também um tsunami foi responsável por muitas das mortes (vários milhares) verificadas. O mundo da época ficou chocado. A solidariedade internacional – activa ou receptiva aos pedidos de auxílio português – fez-se sentir sobretudo da parte de Espanha, de Inglaterra e de França.

O mundo mais longínquo soube da ocorrência bastante tempo depois, pelo que, também por isso, não pôde prestar relevante auxílio. Hoje, com a profusão dos computadores e da Internet, que McLuhan mal conheceu (morreu em 1980), habitamos, de verdade, uma aldeia global.

Todos pudemos “presenciar”, com um curto desfasamento no tempo, a enorme escala da desgraça ocorrida há dias, cujos efeitos se prolongarão (desalojamento de milhões de pessoas; perigo de epidemias).

A comoção internacional que atravessa a consciência de muitos governos e cidadãos, manifestada através de uma visível solidariedade activa, talvez demonstre que o nosso tempo, não estará irremediavelmente marcado pelo egoísmo e pela indiferença.

Muitos humanos terão já entendido que “dançamos todos sobre o mesmo tapete” (a Terra) e que muitos problemas são comuns a toda a humanidade (a poluição e o terrorismo global, por exemplo).

A coligação de múltiplos gestos (ainda que insuficientes) a favor dos infortunados permite ainda acalentar a esperança de um mundo melhor, onde – desmentindo a indiferença patente no relato que Eça faz da vila portuguesa – todos possamos ser mais sensíveis para com a sorte dos nossos “vizinhos”.




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