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Que seria da floresta sem o vento?…

O tempo de Natal, mau grado as crises, é uma época de Esperança.

N/D
31 Dez 2004

Esta, porém, só poderá vir, se formos homens dispostos a aceitar a cura, reconversão de valores veiculados na pobreza, humildade e grandeza de horizontes humanos e celestes, que esse Deus, feito Menino, trouxe para todos os homens.

Confrontados sempre pelo Natal com grandes catástrofes naturais, como que a Natureza, revoltada, explorada e prostergada, levanta a sua voz e, em poucos minutos, reduz a nada todas as nossas ilusões, tanto mais profundamente sentidas, quanto nos desviámos da verdadeira rota de homens marcados pelo invisível.

Será que assim conseguimos superar o nihilismo, que nos invadiu, ou vivemos apenas nos índices e consequência de angústia, que o nosso tempo nos mostra, no meio de oásis perdidos, que reduziram a escombros todos os nossos sonhos edénicos?

Talvez seja o tempo a necessitar e urgir grande transformação, ou a levar-nos para outros rumos sem quimeras e de sonhos desencantados…

Uma obra, em complemento do nihilismo nitzscheano, que traduz também esse vazio existencial deixado pela morte de Deus é a Metamorfose (Die Verwandlung) de Kafka.

George Lukacs diz que nele há uma angústia imanente ao devir do mundo, o total abandono do homem em face de um terror inexplicável, impenetrável, inelutável, que faz da sua obra como que o símbolo de toda a arte moderna a exprimir todo o universo do drama íntimo, doméstico e singular do arquisolitário Samsa, emblema patético de toda uma humanidade sofredora, confrangida num humanismo adulterado ou prostituido.

Por isso o personagem Gregor Samsa, ou o homem solitário e degradado, aparece metamorfoseado em bicho ( Ungeziefer), um insecto rastejante não determinado ( espécie de barata, escaravelho?…), mas, em qualquer dos casos, um ser monstruoso, irradiado ou alienado de vez da sociedade humana e do ambiente familiar, onde vive até à solitária morte, tornado repelente para todos, mesmo para os seus pais e irmã.

O obscuro caixeiro viajante recriado pelo judeu de Praga será então a parábola mais dolorosa e profética das metamorfoses perversas do século XX europeu: o desprezo pelo drama atroz dos outros, a indiferença perante a morte dos parentes e massacres mais brutais, a desumanização política das ditaduras – a Shoah – , o reino da Besta hitleriana ou de outras bestas… como o drama da solidão no homem abandonado, desprezado, degradado, esmagado pelas ideologias ou pelos fascismos – de direita ou de esquerda, reduzido ou metamorfoseado numa “coisa” vil, cuja existência só com nojo se pode tolerar, e cuja lôbrega morte constitui um alívio numa família “normal” alheia ao seu sofrimento, que ninguém quis enfrentar ou atenuar.

O facto exerce-se diante de nós como metáfora e tentativa de explicação ou decifração de um enigma ainda mais doloroso: a visão verdadeiramente diabólica do mundo nesta estória de abandono desumano e da total ausência de caridade e de sensibilidade humana pelo próximo.

É verdade que as narrativas de Kafka estão na literatura entre as mais negras e mais presas a um desastre absoluto. Mas são também aquelas que torturam mais tragicamente a esperança, não porque esta seja condenada, mas porque não consegue ser condenada. Por mais completa que seja a catástrofe, uma margem infinita subsiste, da qual não se sabe se ela reserva a esperança ou se se afasta dela para sempre”. (Maurice Blanchot).

Seja como for, segundo Eugene Jonesco é o mundo dessacralizado que Kafka denuncia: o mundo sem finalidade, no labirinto tenebroso onde o homem só, inconscientemente, busca uma dimensão perdida, que nem sequer pode conceber, tal como Jonesco levou à subversão da linguagem dos símbolos, códigos e signos.

No início de mais um novo ano, em que os sinais se mostram horripilantes e as consequências de catástrofes imprevisíveis, sejam naturais, políticas, sociais ou económicas, compete ao homem saber lê-los seja numa dimensão profética, literária ou teológica.

Teremos mesmo assim de procurar a vertente humanista, em que a humanidade tresmalhada, a perder os seus rastos, referências e contornos, se tem atolado num pântano de vícios, indiferente aos sinais apocalípticos que correm.

Estes, de uma maneira ou de outra, são portadores de mensagens inefáveis, que só com antenas muito afinadas, saberemos compreender, apesar da disfunção de linguagens, crité-rios ou de valores…

E Portugal, o tal cantinho ou “atoleiro” político, será indiferente aos ventos que sopram, mesmo contrários, ainda com posições tão radicais e radicalizadas como o Bloco de Esquerda?

Quem são então os “inquisidores” fanáticos ou fundamentalistas?!…




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