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Ética da natureza?

Nos últimos anos, tem-se assistido a uma descoberta, que ainda está a fazer o seu caminho: a de que os estados mentais têm uma estreita relação com a saúde ou a doença, podem afectar a força do sistema imunológico e o vigor do sistema cardiovascular.

N/D
31 Dez 2004

Não se trata já de saber, a nível físico, o que é bom ou mau para nós, mas de saber, a nível dos nossos estados mentais, o que é bom ou o que é mau para a natureza.
A natureza revela que tem a sua ética? Para aqueles que tudo resumiam à dimensão da medicina organicista, à reacção química do medicamento, negando qualquer valor à intervenção psicoterapêutica, significa também a abertura de uma nova perspectiva, que há dois caminhos complementares.

Há estados emocionais que favorecem a saúde (daí a sua bondade ética) e há estados emocionais que prejudicam a saúde (e, por isso, são reprováveis). Considerando isto em termos de responsabilidade pessoal, fazer uma coisa ou fazer outra não será eticamente indiferente.

Vejamos alguns dos estados mentais já estudados, começando por estados mentais negativos:

– Ira. Num estudo feito na Universidade da Carolina do Norte sobre pessoas com doenças cardíacas graves, verificou-se que as pessoas que sentiam mais ira eram as que tinham maior obstrução no sistema vascular.

Também pessoas que tinham apresentado um elevado grau de hostilidade tinham morrido de causas como doenças do coração, cancro…

Verificou-se também que a ira é um factor determinante de morte prematura: investigadores de Harvard descobriram que a emoção mais comum nas 2 horas que precedem um ataque cardíaco grave é a ira.

Verificou-se também que, em pessoas que já tiveram um ataque cardíaco, um acesso de cólera pode diminuir a eficácia do bombeamento do coração em mais de 7%, o que é considerado pelos especialistas como uma queda perigosa no fluxo do sangue.

– Depressão. Outro estado mental que apresenta consequências graves para a saúde e, infelizmente, tão generalizado na sociedade actual é a depressão: sentir tristeza, sentir pena de si mesmo, sentir desamparo, como se nada mais houvesse para além do horizonte e tudo estivesse perdido…

Demonstrou-se que a depressão interfere na recuperação de uma doença grave. Num estudo sobre mulheres com cancro da mama, as mais deprimidas tinham menor quantidade de células assassinas naturais e eram também as que tinham tumores que se espalhavam mais rapidamente pelas diferentes partes do corpo.

Outro estudo, feito com pes-soas idosas entradas no hospital com fractura da bacia (uma lesão bastante grave, pois pode impossibilitar de voltar a andar), revelou que as pessoas que não eram deprimidas tinham uma probabilidade três vezes maior de voltar a andar e nove vezes maior de voltar ao seu nível de saúde anterior.

A depressão parecia interferir na cura do osso ou na função de recuperação.

– Ansiedade, stress… Numa experiência com macacos sujeitos ao stress de viverem numa jaula em que o líder era constantemente mudado (por natureza, estes animais gostam de ter um líder, lutam pela liderança mas, uma vez esta estabelecida, aceitam-na e cada um cumpre o seu papel), um ano depois, esses animais estavam com as artérias obstruídas de cristais de colesterol.

Na gripe, os efeitos do stress mostram-se também cruciais: quanto mais elevado for o nível de stress, mais vulnerável o indivíduo fica à gripe.

Num estudo de H. Friedman, verificou-se que pessoas que tinham tendência para ser invulgarmente hostis e zangadas, muito ansiosas, tristes, pessimistas, tensas… apresentavam um risco duas vezes maior de contrair doenças graves como asma, dores de cabeça crónicas, úlceras do estômago, doenças cardíacas, artrite…

Vejamos agora alguns dos estados mentais positivos já estudados:

– Calma, tranquilidade, autocontrole emocional, equanimidade… Todos os estudos revelam que os seus benefícios para a saúde são muitos, seja qual for o método seguido para se conseguir esse estado de calma ou equanimidade.

Numa investigação com estudantes que se preparavam para exames e no qual um subgrupo nada fazia para atenuar essa tensão e outro praticava um método terapêutico de relaxamento, verificou-se que

– a quantidade de linfócitos B e T diminui quando os estudantes começam a fazer o trabalho intensivo de se prepararem para os exames;

– mas essa diminuição foi recuperada nos estudantes que faziam relaxamento, ao contrário dos que o não faziam.

– Optimismo: é um estado mental positivo, uma atitude relacionada com a maneira como explicamos para nós próprios as coisas más que acontecem na vida, para que não se fique desmoralizado ou deprimido diante dos revezes.

Por exemplo, um estudante não passa no exame: se for de tendência pessimista, fica paralisado, triste, conclui que não passa porque é burro e tende a desistir; se o estudante for de tendência optimista, conclui que poderia não estar bem preparado e vai-se preparar melhor para a próxima época de exames.

Os pessimistas tendem também a contrair mais doenças graves.

– Confiança. É a sensação de sermos capazes de tratar dos problemas que vão surgindo. Por exemplo, espera-se de um motorista de autocarro que seja capaz de cumprir certo horário, independentemente de factores que aconteçam pelo caminho e sobre os quais ele não tem controle.

Verificou-se que essas pessoas têm tensão arterial três vezes mais alta (e outros problemas de saúde) do que aqueles que têm mais controle sobre o que fazem nos seus empregos. É que ele não é capaz de controlar os factores que podem ocorrer pelo caminho.

Outra experiência significativa e que merece destaque refere-se a pessoas idosas que estão em Lares. Numa experiência em Yale, pediu-se à direcção de um Lar para permitir que um grupo de idosos tivesse maior controle sobre as decisões que os afectavam diariamente, como decidir o que iam comer, decidir quando rece-biam visitas…

Um ano mais tarde, esse grupo apresentou metade do índice de mortalidade em relação ao outro grupo que não tinha possibilidade de fazer esse controle e que tinham uma vida passiva e dependente.

– Cordialidade. Entendida aqui mais no sentido de ligação social, no sentido de ter amigos que lhe proporcionem apoio emocional.. Fez-se, na Califórnia, um estudo com 5.000 pessoas.

Procurou-se saber se tinham amigos, se participavam em actividades da comunidade como organizações cívicas, reuniões públicas, na igreja, etc. Nove anos depois, as pessoas com poucos amigos apresentavam uma probabilidade duas vezes maior de ter morrido.

Outros estudos demonstraram que esse factor de contacto social está relacionado com o índice de mortalidade (é lugar comum ouvir-se dizer que as pessoas, mal se reformam, depressa adoecem e morrem, porque se sentem sós, deprimidas, desocupadas; ou então o abandono nos Lares; ou a solidão dos doentes hospitalizados; ouvi também muitas vezes o ditado de que velho mudado é velho enterrado, porque perde as suas referências afectivas e de amigos).

Conclusão: as ligações humanas amortecem os efeitos do stress. ´

Há regras inscritas na natureza, há regras inscritas no nosso coração que não podemos alterar, sob pena de nos autodestruirmos.




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