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Um exemplo a seguir?

Em Portugal, a sinistralidade é das piores do mundo. Conduz-se mal por via da falta de carta de condução ou por terem uma comprada sem saberem conduzir, por excesso de álcool ou de velocidade, por azelhice, falta de educação, por estupidez ou loucura

N/D
29 Dez 2004

Estive na Roménia, há bastantes anos, ainda no tempo do ditador Ceausescu. Bonito e muito agradável, o que nos foi permitido conhecer: todo o complexo turístico junto ao Mar Negro e as praias que as ondas banhavam.
Um alegre passeio no Danúbio, que afinal não era azul, mas escuro da poluição, desfrutando da beleza das margens.

Só o partido imperava e prosperava. O povo não era gente, antes animais ao serviço do Poder. Os empregos hoteleiros, estudantes que, trabalhando nas férias pagavam os cursos que o governo lhes dava.

As mulheres maravilhavam-se com os nossos sabonetes, cremes ou perfumes, porque nada disso poderiam ter. Todos gostavam de chocolate vendido nas lojas para turistas, onde não lhes era permitido entrar.

Éramos nós que lhes comprávamos e lho oferecíamos. Um cigarro americano era um luxo paradisíaco. Sempre que víamos uma mulher bem vestida, bem perfumada e maquilhada, era para nós “a amante do partido” e era assim que as conhecíamos.

Tudo o resto era povo humilde, abnegado, receoso, com a carência e o sofrimento estampados no rosto.

Depois de duas semanas de um descanso inquietante e angustiado, porque falávamos francês e inglês e tínhamos olhos de ver e ouvidos de ouvir os que se abreviam à queixa, regressámos a Bucareste para apanharmos o avião.

A capital, embora com belos edifícios, era uma cidade triste e, à noite, escura, mal iluminada. Nas lojas não existiam montras e também nada havia para mostrar.

Fez-se-nos noite na estrada por onde seguíamos a passo de caranguejo, já que eram apertadas as leis do trânsito e os carros eram velhos, a desfazerem-se.

A certa altura um polícia mandou-nos parar. Como ia à frente, vi, de repente, um porta-moedas que caía no meu colo e a cara angustiada da nossa guia suplicando-me que lho guardasse, o que fiz de imediato.

Ai de quem fosse apanhado com dólares!

Mas o polícia nem sequer entrou. Fez sinal ao motorista que saísse e o acompanhasse em direcção a uma casa, onde desapareceram.

E nós ali ficámos sem nada entender do que se passava. A nossa guia, que tinha vivido alguns anos no Brasil, disse-nos que o remédio era esperar, já que também ela nada sabia.

E esperámos bem mais de uma hora. Quando o motorista regressou trouxe com ele a explicação: o polícia acusara-o de ter cometido uma infracção de trânsito e dera-lhe, como castigo, assistir a um longo filme com diversos acidentes das mais variadas e terríveis consequências para os infractores.

Era a pena a aplicar, sem multas monetárias, papéis, barulho ou confusão.

Este episódio ficou-me gravado na memória e várias vezes me ocorre. Em Portugal, a sinistralidade é das piores do mundo.

Conduz-se mal por via da falta de carta de condução ou por terem uma comprada sem saberem conduzir, por excesso de álcool ou de velocidade, por azelhice, falta de educação, por estupidez ou loucura.

As multas são cada vez mais pesadas e as mortes cada vez mais trágicas. Morre-se dentro do carro, na passadeira e até sentado à porta de casa, em amena cavaqueira, apanhado pela imprudência e imperícia dos condutores.

Algo se tem feito? Nada. Ou melhor, nada que resulte. Que tal fazer parar um desses “aceleras” e deixá-lo fechado numa sala, durante umas boas horas a ver filmes infernais?

Obrigá-lo a faltar ao emprego, à entrevista, ao encontro casual. Tudo perderia, mas ganharia a vida, atrasaria o seu próprio (ou de outros) funeral e talvez aprendesse. Quem sabe? Aqui fica a deixa.

Só experimentando saberemos.




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