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Vida nocturna é inofensiva para a saúde?

Trocar arbitrariamente o ciclo quotidiano de vigília-sono, fazer com frequência vida nocturna é indiferente ou é inofensivo para a saúde?

N/D
28 Dez 2004

Não me refiro, neste artigo, aos trabalhadores em regime de turnos por noite, porque o assunto é socialmente mais complicado: esses não escolhem fazer isso, mas são obrigados a fazê-lo para ganhar a vida.
Refiro-me aos inúmeros jovens (e cada vez mais novos) e adultos que frequentemente vão para as discotecas e forçam o organismo a alterar os seus ritmos biológicos, situação agravada com elevadas e estranhas misturas alcoólicas.

Preocupa-me também a indiferença social a tudo isto, como se fosse coisa de somenos importância.

De tanta permissividade, até já se chega a oferecer transporte gratuito para regressar a casa, à hora a que se deviam estar a levantar, para as meninas e meninos sobrexcitados (embriagados?) se não estamparem de carro (não sei se serão os mesmos que, de vez em quando, organizam manifestações contra o pagamento de propinas, para pouparem dinheiro para as noitadas…).

De tudo isto resulta uma questão: é importante para o nosso bem-estar e para a nossa saúde respeitar o ciclo quotidiano de vigília-sono?Ou é meramente indiferente?

Se é indiferente, então a questão da vida nocturna é apenas uma questão civilizacional, uma questão de padrões de vida, uma questão cultural; mas se é biologicamente importante, então o hábito cultural da vida nocturna, da perturbação dos ritmos biológicos de vigília-sono é um problema ético de saúde, mais do que um discutível problema cultural.

Em termos biológicos e no clima de indiferença que caracteriza a não observância de regras de vida nos dias de hoje, o ciclo de vigília-sono tem uma importância cada vez mais actual, porque desempenha um verdadeira função curativa dentro do jogo alternante de um período de acumulação de energia e de um período de dispêndio de energia.

Para subsistir, o organismo tem necessidade de um tempo de actividade e de um tempo de repouso.

A nossa epífise, que constitui um sistema sensível à luz, é perturbada pela “jornada normal prolongada” com ajuda da luz artificial.

E, se esta desregulação crónica é seguida de um sono perturbado, o funcionamento de todos os sistemas de regulação ficam também perturbados, nomeadamente o teor da curva do valor de açúcar no sangue, a actividade de diversos órgãos, as performances fisiológicas, a condutividade nervosa, a dor, a pulsação, o metabolismo de base, a produção de adrenalina.

A epífise é um dos numerosos centros reguladores do nosso organismo. Ela mostra-nos o modo como reage o nosso organismo, no seu equilíbrio endocrinológico, aos estímulos exteriores.

Quando a luz entra por via da nossa retina, ela desencadeia no espesso feixe nervoso influxos, dos quais uma pequena parte chega ao hipotálamo e daí à epífise. A epífise liberta então uma pequena quantidade de adrenalina (que não é produto exclusivo das glândulas supra-renais).

Esta adrenalina provoca a transformação do ácido aminado triptofano numa hormona de fadiga, a serotonina e num colorante, a melatonina. É aí que intervém o ritmo dia-noite. Só se desenvolve assim no princípio deste processo, quando há luz. Mas, a melatonina só se produz na escuridão.

É constatação corrente que muitos dos nossos jovens apresentam um aspecto de cansados, espécie de fadiga crónica, de falta de vitalidade e energia. Que efeitos pode vir a ter esta manifestação continuada do mecanismo do stress na capacidade de trabalho, na capacidade de concentração, no relacionamento pessoal e social, na sua própria saúde, na vida sexual, na fertilidade?

No referido mecanismo de síntese encontra-se um factor que depende de nós, uma fase de espera comandada pelo meio ambiente, pela alternância dia-noite. A síntese da hormona da epífise segue, pois, o ritmo dia-noite.

O meio ambiente, neste caso o tipo de horários de actividade-repouso que fazemos, desempenha aí, como em muitos outros casos, uma influência sobre a produção hormonal.

A epífise parece ter a missão de sincronizar o ritmo de algumas das nossas funções com certos ritmos do meio ambiente. E se o ritmo natural dia-noite não é respeitado?

Pode-se argumentar que ainda se não conhece suficientemente esta função reguladora da hormona da epífise, mas conhecem-se certos efeitos particulares e sabemos, por exemplo, que a injecção experimental de melatonina trava a actividade da glândula tiróide, modifica o encefalograma e cria um estado semelhante ao sono.

Será então indiferente para a saúde forçar indiscriminadamente o ritmo dia-noite?




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