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Natal, também tempo de balanço

O ano de 2004 corre apressadamente para o fim. Anuncia-se, um pouco por todo o lado, múltiplos eventos para festejar a passagem de ano.

N/D
28 Dez 2004

É preciso esquecer as agruras do passado e assomar com esperança redobrada a concretização de desejos recentes, ou daqueles sucessivamente adiados. O ritual vai-se repetindo numa cadência cada ano mais mercantilista, bem patente nas Festas de Natal e Ano Novo.
Apesar desta e de outras vicissitudes continua a ser uma época propícia ao encontro e à confraternização. É tempo de balanço e momento de projectar o futuro imediato.

Nesta avaliação em que vamos acrescentando algumas páginas ao compêndio da vida do nosso colectivo, não quero deixar de destacar, numa perspectiva muito própria, o que de mais ou menos positivo aconteceu em Portugal nos últimos doze meses, impondo-me desde já seleccionar dois exemplos de uma e outra realidade.

No que se refere aos acontecimentos que nos orgulham e nos afagam o ego, julgo que será justo destacar os êxitos que constituíram a realização do “Campeonato Europeu de Futebol” e o Festival “Rock in Rio”. Por certo, estes dois eventos seriam facilmente elegíveis por larga maioria dos portugueses.

Nos antípodas destes feitos, bem mais difícil será enumerar dois exemplos do que não deveria ter acontecido, dada a quantidade dos que poderiam ser distinguidos.

Com tão grande opção de escolha o consenso, por certo, será bem difícil. Contudo, atrevo-me a eleger como os dois factos mais negativos o que se verificou com os ataques a algumas instituições de solidariedade social e a crise política em que o país se vê mergulhado.

No que concerne ao primeiro ponto, não posso deixar de repudiar o que se disse e se escreveu sobre algumas instituições, como a Casa do Gaiato ou a Obra do Ardina, que tão relevantes serviços têm prestado à sociedade portuguesa.

Manifesto profunda indignação pela facilidade com que se questiona o papel educacional e altamente meritório destas casas. Estas têm contribuído para que muitas crianças e jovens, abandonados pelas famílias e pelo próprio Estado, tenham conseguido a concretização de projectos de vida e sejam hoje homens e mulheres capazes de dar o seu próprio testemunho.

Educar não é, nem nunca será, fazer vestir um modelo pré-concebido a cada um dos educandos. Exige, para além de formação adequada, qualidades humanas que permitam adaptar a cada criança os métodos mais apropriados a preservar a sua identidade, a potenciar as suas qualidades, permitindo-lhe crescer em plenitude e segurança.

Não se deve cair na tentação da massificação amorfa, pensando sempre que vários poderão ser os caminhos.

No que diz respeito à crise política em que o país se vê mergulhado, consequência da leitura que o Senhor Presidente da República entendeu fazer após quatro meses de desempenho do Governo por si empossado e que resultou da saída do Dr. Durão Barroso para a Presidência da Comissão Europeia, já nas páginas deste jornal dei a minha opinião.

Realçando a legitimidade dessa opção, não podemos deixar de considerar as suas consequências profundamente nefastas para os bons pergaminhos de Portugal no contexto internacional de que faz parte. Facto tão anómalo não deixa de constituir uma excepção susceptível de contribuir para a nossa desqualificação.

Ao longo dos séculos os portugueses souberam, sempre, ultrapassar as maiores dificuldades, vencer os desafios mais difíceis e evitar abismos ardilosos.

Hoje, como outrora, acredito que seremos capazes de escolher os melhores caminhos, sem ceder à tentação das promessas cor-de-rosa que acenam com oásis e só acabam por trazer miragens.

Se soubermos dar as mãos, se houver estabilidade, rumo definido e estratégia bem delineada, seremos capazes, com trabalho profícuo, de solidariamente continuar Portugal e afastar de vez as nuvens negras que vêm ensombrando os nossos horizontes.




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