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Entre dois medos

Nem Santana nem Sócrates dão garantias de serem totalmente diferentes do que foram no passado

N/D
27 Dez 2004

As eleições para escolha do VII Governo Constitucional, a sair das eleições de 20 de Fevereiro próximo, vão colocar no prato das opções dos eleitores portugueses dois medos.
É bem evidente o medo de voltarmos ao despesismo do passado com José Sócrates, com todo o cortejo de loucuras e os nefastos reflexos que tiveram na economia portuguesa, e o medo de elegermos um primeiro-ministro que não firma as suas orientações, apontando de manhã um caminho para depois o virar noutra direcção da parte da tarde.

E não há mais nenhuma escolha a não ser estes dois candidatos, uma vez que os líderes dos outros partidos, apesar de necessários, apenas são líderes de partidos de contestação.

Deste jeito vamos escolher debaixo desta suspeita que em nós se transforma em escolher entre dois males.

Votar por remédeio é votar no mal menor. Ninguém ama aquilo que teme: é assim no relacionamento entre pessoas, é igualmente assim na vida política. É este o cenário que temos.

O que podemos pedir é que nenhum deles se transforme em pesadelo para Portugal e para os portugueses.

Cada um dos eleitores vai ter de escolher para respeitar a democracia, e fá-lo-á duma maneira sensitiva, pois que se apelar ao racionalismo, pode enfrentar-se com a recusa de escolher e, então, será um abstencionista.

Os que votam PS dizem, em jeito de auto-convencimento, que José Sócrates aprendeu com o passado do PS e vai apresentar-se regenerado; os que votam PSD afirmam que Santana Lopes também será outro, mais forte nas convicções, mais coerente nas opções, uma vez que nestes quatro meses de governo aprendeu a ser primeiro-ministro.

A verdade é que se admitirmos a primeira variável como válida, isto é, que Sócrates vai ser seguro nas finanças públicas – a consolidação orçamental ainda é uma miragem, dizem os entendidos -, também, por honestidade intelectual, teremos de admitir a segunda como válida, isto é, temos de admitir que Santana Lopes será seguro na coordenação do governo.

Se a Sócrates dermos o direito à evolução, de igual maneira deveremos dar a Santana Lopes o benefício da dúvida. Se quisermos ser honestos na apreciação dos dois candidatos a primeiro-ministro, não podemos sobrevalorizar uma das hipóteses em detrimento da outra.

Mas não podemos também esquecer, neste equilíbrio de apreciação, que haverá sempre o problema das recaídas. Tanto José Sócrates pode fazer regressão – a co-incineração é um exemplo vivo – como Santana Lopes pode repetir os erros do passado recente – a venda dos imóveis do Estado, seguida de arrendamento – é um grito recente.

E qual dos dois correrá mais riscos de regresso ao passado? Os vícios antigos são sempre os que regressam com mais força porque os mais novos ainda encontram a resistência da vontade, potenciando a mudança.

Mas de igual modo podemos dizer que as feridas velhas estão curadas e as novas correm o risco de abrir com mais facilidade. No prato da nossa balança, onde pesamos os dois candidatos, nem Santana nem Sócrates dão garantias de serem totalmente diferentes do que foram no passado.

Sócrates foi membro dum governo ruinoso e Santana foi primeiro-ministro dum governo ruidoso. Nem um nem outro deveriam ser candidatos mas, enfim, uma vez que o são, temos de escolher um deles.

E os programas eleitorais podem resolver este impasse? Se os programas eleitorais não fossem as papas e os bolos com que se enganam os tolos, talvez pudéssemos optar por aí. Será que quem pensa não vota e quem vota não pensa?

Como diria Descartes, penso, logo voto.




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