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Saúde: o Natal de mãos dadas

Mais um Natal, mais uma homenagem a um Menino pobre, como o de Belém, desde jovem dedicado à justiça humana, pela igualdade e pelo amor entre os homens, sofreu vitupério, suplício e morte.

N/D
25 Dez 2004

Trabalhar na noite de Natal no Serviço de urgência, para os profissionais de saúde representa apenas mais um período de tarefas, a cada um a si incumbidas, de prestar o melhor serviço, com a eficácia e eficiência possível, junto do utente.
Emoção na noite fria trabalha o nosso subconsciente espiritual. Ah! Pobre Natal, este nosso Natal!… Velho caduco e alienado, que não permite ouvir a dor que passa ao nosso lado. Natal exaurido do amor, da fraterna dádiva, do ameno sorriso dado ao mais humilde! Natal sofisma, confusão. Natal cansado, que, de tão cansado nos chega pervertido.

São 22 horas e 30 minutos, chega o primeiro utente. É Senhor Joaquim com uma ferida corto-contusa no couro cabeludo e demasiado aborrecido por não ter chegado ao fim da festa nas cantarolas alusivas ao Menino de Nazaré. Um garrafão de vinho caiu-lhe no sítio errado e na hora menos desejada. “… Arre que com isto não contava e daqui vou direitinho para a cama… para mim o Natal acabou…” desabafos de quem não gosta de levar uns pontinhos de sutura para coser a “coisa” da melhor maneira.

Manda aqui os Pastores e Reis de um mundo vasto de presépios, numa das mais belas mensagens, “… onde haja pão e vinho e bafo de menino e flor de rosmaninho, por todo o tempo e nunca com esmolas de momento;”. Foram estas palavras de entusiasmo, de força e motivação para a continuidade num aconchegado lar sadio, que procuramos transmitir a todos os “Joaquins e Marias” que por força das circunstâncias nos “visitaram” na noite de Natal.

Também meditamos enquanto o tempo nos permita. Ah!… este nosso Natal tão restrito!… que não chega a dois terços do planeta, a esses irmãos que esmorecem nas garras da fome, da peste e da guerra.

Natal!… só deste lado, Natal que nos aturde de gritos e correrias – esta pujança ansiosa do ter e do mais ter. Eis tudo isso, no rosto dos azafamados transuentes; e eu, no meio deles!…

Para isso, fico por cá, neste corredor “decorado” de pessoas deitadas, vítimas de uma fragilização da saúde. Dou-lhes o melhor, afinal são os meus ilustres “convidados” e tudo farei para que nada lhes falte nesta noite amordaçada de sofrimento e deslumbrante à realidade das partidas que a vida prega aos “Joaquins e às Marias” que tiveram que “conviver” connosco na noite de Natal.

Ao fim de 24 ou 12 horas de trabalho consistente e sem interrupção, ficamos com uma sensação de alívio, quando respiramos mentalmente e “falamos” com os nossos botões: foi um Natal… Outro Natal não tarda. Foi um ano e outro ano vem.

Os nossos “Joaquins” e as nossas “Marias” tiveram um fim muito feliz. Tiveram alta médica, sorriram e desejaram-nos boas festas e feliz ano novo cheio de muita “saúdinha”.




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