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PSD retribui aquele favor de Guterres a Barroso

1- Democracia iniciativa – As Democracias em geral, a portuguesa incluída, estão cada vez mais a assemelhar-se a regimes iniciáticos, só compreendidos por meia-dúzia de eleitores. Em verdade, sempre assim foram.

N/D
25 Dez 2004

Porém, os sinais que hoje transparecem, deixam adivinhar a progressão geométrica do fenómeno (e aqui, a palavra “geométrica” pode ter vários sentidos, sendo os crípticos os mais importantes…). A Democracia está cada vez mais distante dos povos, sendo certo também que os povos estão cada vez mais incultos e distantes da Política.
Às vezes, a Democracia moderna lembra os mistérios de Elêusis ou os mistérios de Dionísio. O importante passa-se noutras esferas, subterrâneas ou etéreas, a que os povos terráqueos não têm acesso. Desta vez, parece que lá no alto dos céus, por caprichos de caldeu Bensaude S. Paio se zangou com Santa Ana e a pôs fora de casa.

Atavismos de neto de Macabeu contra neto do “divino” Júlio, rivalidades surdas entre Caldeia e Etrúria, águas do Jordão que não se misturam com águas do Tevere?

2 – Sampaio impede Santana Lopes de “desapertar o cinto” – Dito assim, as pessoas compreenderão melhor o essencial da actuação do Presidente da República portuguesa, quando a semana passada dissolveu a Assembleia da República sem qualquer razão efectiva (além de pequenos “faits-divers” que ele próprio, para não cair em ridículo, se recusou a inventariar no seu discurso oficial, tal era a insignificância dos factos).

Em Julho último, quando Durão Barroso abandonou o cargo de l.º ministro, Sampaio não dissolveu a Assembleia da República porque, interpretando bem a Constituição, deu a perceber que em Portugal não é o Povo que escolhe directamente os governos e os 12 ministros.

Quem os escolhe são, isso sim, o(s) partido(s) em que o Povo mais votou, nas eleições para a A.R.. Daí que, havendo na A.R. uma maioria PSD-PP que queria continuar coligada e a governar, Sampaio deixou-a continuar a trabalhar, embora tenha avisado de que ia “ficar vigilante”. Esta inteligente atitude do Presidente foi maioritariamente acolhida, mesmo entre alguma Esquerda.

Por outro lado, o programa de Governo que Barroso formulou em 2002, avisava que os 2 primeiros anos iriam ser de contenção e sacrifícios; mas que nos 2 últimos já se poderia dar mais facilidades e começaria a notar-se um clima geral de retoma. Ora este faseamento do programa do governo PSD-PP pareceu à época ter contribuído para a boa decisão de Sampaio.

Porém, uns escassos 4 meses depois (e sem que algo de especial se passasse ou houvesse brechas na coligação) Sampaio mudou de ideias e contradisse-se, dissolvendo, sem razão, a mesma Assembleia de há 4 meses.

Movido por razões de ordem provavelmente partidária, o P.R. impede agora que o Governo cumpra a promessa de “desapertar o cinto” e que com isso ganhe popularidade suficiente para vencer as próximas eleições. Ao mesmo tempo (e isto adivinha-se agora…), em Julho passado, Sampaio só não dissolveu a A.R. e convocou eleições, porque temia uma derrota eleitoral do seu PS, então chefiado por Ferro Rodrigues, o qual atravessava um mau momento devido ao escândalo Casa Pia (o qual, por sua vez foi provavelmente um truque que Barroso usou para se perpetuar no Poder).

3 – Afinal, o Orçamento não era tão mau como isso… – Jorge Sampaio insultou pessoalmente os vários membros do actual Governo, ao repetir à sociedade a ideia da sua hipotética “incompetência” e conjectural pouca “credibilidade”, como motivos da sua queda, por Sampaio ditada. Porém, esta opinião altamente negativa não impediu o P.R. de implorar que Santana e Portas aprovassem o Orçamento tal qual o tinham acabado de elaborar, pedido a que os dois líderes não deixaram de corresponder, em nome do alto interesse nacional. Portanto, o Orçamento (que é um dos principais instrumentos da governação, senão o principal) nem era obra de “incompetentes” nem de políticos pouco “credíveis”…

4 – Algumas outras “trapalhadas” do dr. Sampaio – Além dessas duas manifestas contradições (a de deitar abaixo um governo ao qual ainda há 4 meses havia dado o beneplácito; e a de, demissionário, “ordenar” a esse Governo que aprovasse o seu “incompetente” e “pouco credível” orçamento), o dr. Jorge Sampaio cometeu recentemente outras “gaffes”.

Assim, e primeiro, não convocou o Conselho de Estado antes de tomar a decisão de dissolver a Assembleia da República (convocou-o apenas para lhe transmitir um facto consumado). Segundo, não avisou o presidente da Assembleia (Mota Amaral) de que a iria dissolver, o que é gravíssimo. Terceiro, esteve 10 ou 11 dias sem se explicar ao Povo, acerca do que se estava a passar e da crise em que o País iria ser, por si, lançado. Quarto, escolheu para seu “arauto” aquele a quem precisamente iria prejudicar mais, Santana Lopes.

E, que se saiba, nunca o desmentiu, mesmo quanto à grave acusação de que Sampaio, na 2.ª feira, garantiu a Lopes por 3 vezes que não o demitiria. Quinto, o P.R., para livrar o País de uma crise imaginária (que imputa a este governo) causa, ele próprio, uma crise ao convocar eleições com desenlace incerto, as quais vão “congelar” a economia portuguesa por cerca de 6 meses ou mais…

5 – Entre o IRC dos Bancos e as críticas de Cavaco e outros – Paulo Sacadura Cabral Portas veio depois denunciar que o Governo caía, em parte também porque este pretendia que os muito ricos pagassem sem fraude os respectivos impostos. Razões como esta (ou a do favorecimento a Sócrates) devem ter pesado muito mais na decisão de Sampaio, do que o detalhe da relativa desorganização da tomada de posse do governo, motivada possivelmente por intrigas da facção barrosista (e sobre isto “vide” a recente entrevista de Ângelo Correia à RR).

E pesado mais, também, que as sucessivas e injustas críticas, proferidas longe do Fórum adequado do Congresso de Barcelos: as de Marcelo, de Cavaco, de Marques Mendes (este ao menos teve a lealdade de ir lá), de Dias Loureiro (“a posteriori”) e desse perfeito desconhecido dr. Henrique, não me lembro se de Chaves, se de Peniche.

Com “amigos” destes, Santana e Portas não precisam de inimigos…

6 – Não havendo coligação pré-eleitoral PSD-PP, Sócrates será o 1.° ministro – Para surpresa e desagrado de muita boa gente (eu próprio incluído) sabe-se a 14 de Dezembro que os 2 partidos do governo decidiram não concorrer coligados. Deste modo, a vitória de Sócrates será certa, pois o PSD ficará bem atrás do PS, o CDS baixará a votação e naturalmente Sampaio entregará o encargo de formar governo ao eng.o Sócrates.

“Finalmente, Sócrates”, como se diria em gíria nupcial… O PS só seria derrotado por uma sobre-motivada e des-complexada coligação PSD-PP e o simples facto de ela se ter desfeito vai dar a Sampaio a razão que ele não tinha. É a demissão total…

E a intuição de alguns dirá, que todo este complexo cenário foi montado tão-só para devolver o poder ao PS, que o tinha “gentilmente cedido” ao PSD, no preciso momento em que Durão Barroso, esse cometa sulfuroso, tomou conta do partido. É como no futebol, quando uma equipa atira a bola pela linha lateral, para corresponder a qualquer gentileza do adversário… Em Democracia também há “resultados combinados”.




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