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Hoje é Natal

A pacatez de Nazaré foi quebrada naquele dia pelo soar das trombetas e a voz dos arautos: “Por ordem do rei Herodes, segundo um decreto do imperador Augusto, todos devem recensear-se – cada um no seu lugar de origem”.

N/D
25 Dez 2004

S. Lucas, no capítulo II, 1-3, refere o facto nos seguintes termos: «Naqueles dias saiu um édito da parte de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. E iam todos recensear-se, cada qual à sua própria cidade».
Era manifestamente uma atitude de soberba do imperador à qual as populações reagiram com raiva contida, com murmurações e desejos de vingança.

Com Maria e José, as coisas passaram-se de modo bem diferente. Moravam em Nazaré, mas sabiam, pelas Escrituras que o Messias devia nascer em Belém. Isso não os inquietava, pois sa-biam que Deus providenciaria. E assim aconteceu pelo édito do imperador – uma decisão arbitrária, foi um instrumento dos desígnios de Deus.

Maria e José partiram para Belém, numa viagem de 150 quilómetros, particularmente penosa dado que Maria estava no fim da gravidez e não conheciam ninguém em Belém que os acolhesse. Só a fé dos dois, sabendo que levavam o Filho de Deus ainda não nascido, aliviava o sofrimento, anulava a inquietação e mantinha a serenidade.

Como agora, também naquela altura havia racismo – os estrangeiros eram mal acolhidos, mas também como agora, e segundo a letra de uma canção muito em voga: o dinheiro não tem cor, não cheira a «catinga» – é dinheiro e… basta. Mas Maria e José eram pobres.

Como era de esperar – “(…) E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz, e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoira, por não haver para eles lugar na hospedaria” (Lc. 2, 6 e 7).

Queria aqui abrir um parêntesis para esclarecer que o facto do Evangelho nos dizer que Maria teve o seu filho primogénito, não induz a pensar que Maria teve mais filhos, mas simplesmente que nunca tinha tido nenhum. É uma verdade de fé. A corroborar isto, conta Salvador M. Iglesias no seu livro O Evangelho de Maria, o seguinte facto: no sepulcro de uma jovem mãe hebréia, que morreu de parto no Egipto no ano 5 antes de Cristo, pode ler-se esta frase: “O destino conduziu-me ao termo da minha vida entre as dores de parto do meu filho primogénito”.

Assim foi, pois, o primeiro Natal – Deus feito homem, um Menino como qualquer outro na aparência, deitado na manjedoira, com Maria e José ao lado recebendo os pastores e os Magos que avisados de modo sobrenatural O reconheceram como Deus, pois que “prostrando-se O adoraram”.

Na pessoa dos pastores vemos os pobres da terra; na pessoa dos Magos vemos os poderosos e ricos. Todos têm lugar, pois o que conta para Deus não é a riqueza ou a pobreza, a posição social ou a origem, mas sim um coração puro aberto ao acolhimento.

E nós? Somos pobres ou ricos? Humildes de condição ou poderosos? Estrangeiros ou naturais? Não importa. O que é preciso é que, neste limiar do Terceiro Milénio, haja em nós lugar para acolher o Menino. De que maneira? Na pessoa do desempregado, do toxicodependente, do seropositivo, do ex-recluso, do emigrante, do exilado ou do marginalizado. Não esqueçamos que foi Ele que o disse: “(…) Tudo o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt. 25, 40).

Mas será isto o que se passa actualmente? Será o Natal a comemoração do nascimento do Filho de Deus? E para os que não têm Fé, será o Natal, ao menos a Festa da Família ou da Solidariedade? Infelizmente não é assim. Salvo muitas e honrosas excepções, o Natal, mesmo para os crentes, é uma festa profundamente paganizada. O que conta são as prendas e as mesas lautas.

Não estou contra as prendas, mas contra o «espírito» que as motiva. Não se oferecem prendas por carinho, ou amizade, mas muitas vezes por ostentação, gastando mais do que se pode ou deve. O comércio, aproveitando esta debilidade humana, alicia com montras vistosas, onde muitos, apesar da exorbitância dos preços, mesmo assim não encontram com que saciar a sua soberba ou gula, enquanto outros, sobretudo crianças e pais de família se limitam a colar o nariz, pelo lado de fora.

É costume nesta altura fazerem-se distribuições de «Bodos aos pobres», como se eles só tivessem necessidade nesse dia; não está mal, mas seria preferível criar condições estáveis para que tal prática não fosse necessária.

Há depois a compra de brinquedos, reis e senhores nesta época. O brinquedo é algo de fundamental no desenvolvimento de uma criança, mas agora que tanto se fala de «paz», «diálogo», «solidariedade», «fraternidade», não seria mal repensar os modelos de brinquedos que oferecemos às nossas crianças.

Falamos de «paz» e oferecemos pistolas, metralhadoras, lança mísseis, etc; falamos de «diálogo» e oferecemos, não jogos sociais, isto é, com vários participantes, mas jogos pessoais de computador ou auriculares para que só um, o dono, possa ouvir o disco; falamos de «solidariedade» e «fraternidade» e não incentivamos as nossas crianças a repartir, não o que têm, mas o que lhes sobra, por aquelas que nada têm.

Assim estamos muito longe de celebrar o verdadeiro Natal – o nascimento d’Aquele que “(…) não veio para ser servido, mas para servir” (Mt. 20, 28); d’Aquele que disse: “Eu vim para terem a vida e a terem abundantemente” (Jo. 10, 10); e, também, “(…) para eles terem em si a plenitude da Minha alegria” (Jo. 17, 13).




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