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O Homem do Gelo

O génio dos mercadores do nosso tempo procurou usurpar o espírito do Natal e parece, de verdade, tê-lo conseguido

N/D
24 Dez 2004

Com estas palavras, ignorando a nova forma da água, José Arcádio Buendía, na remota povoação de Macondo, algures próximo do nosso tempo, tentava explicar perante os seus filhos o novo e estranho corpo, trazido por um cigano de passagem, que encaravam pela primeira vez – o gelo.

Na celebérrima obra Cem Anos de Solidão, de onde extraí a citação atrás, Garcia Marquez conta a saga dos Buendía, misturando revoluções repetidamente inúteis com uma plêiade de episódios e personagens fantásticos.

Sem pretender intrometer-me com os especialistas da crítica literária, começava por lembrar que nesta obra, usualmente catalogada como integrando o designado “realismo fantástico”, num universo a roçar o paganismo, perpassará – segundo as próprias palavras de Marquez – a ideia de que a solidão é o contrário da solidariedade.

Porém, a partir da citação inicial deste texto, sustentaria que podemos também inferir que desta obra ressalta igualmente a mensagem de que a magia de coisas pequenas ou banais pode também estabelecer-se no espírito de quem não foi ainda tocado pela civilização ou, mais ainda, pela sociedade de consumo.

Esta reflexão – um pouco diversa das que comummente aqui tenho desenvolvido – ocorre-me agora a propósito da época natalícia que passamos.

Com efeito, a generalidade das cartas escritas para o “Pai Natal” pelas crianças do nosso país – como na generalidade do Ocidente – a par da forte carga emotiva, embebida na inocência, envolvem uma apreciável lista de prendas com as quais o ofertante garante a fidelidade dos fãs por mais um ano.

Os adultos, já despidos da inocência criativa do supermercado do Pai Natal, também se invadem mutuamente de ofertas (ainda que enquadradas no tempo de crise que se radicou entre nós), quando não se prendam a si mesmos, ditando que é tanto mais Natal quanto mais coisas trasladarem das prateleiras das lojas comerciais para suas casas.

Entenda-se, não sou eremita, e também me encontro algo envolvido na “nuvem consumista” que parece, sobretudo nesta altura, preencher os nossos horizontes da felicidade.

A própria reanimação da economia no nosso país, por todos tão desejada, exige a reanimação do consumo – forçosamente sustentado por um aumento da riqueza produzida, lembram quase todos os economistas -, sendo que, nesta perspectiva, o maior consumismo desta quadra arrasta também inquestionáveis benefícios.

Contudo, não deixa de ser paradoxal que a celebração do nascimento de Cristo – vindo ao mundo na mais humilde condição – nas sociedades materialmente mais desenvolvidas, designadamente na Europa, se celebre hoje com um festim de ofertas, mas com significativa desvalorização no respeitante a emoções mais intimistas ou altruístas.

Podemos recordar que o Evangelho refere as ofertas dos reis magos a Cristo recém-nascido e assim as ofertas trocadas neste período como que evocam tal procedimento.
Este é o grande invento do nosso tempo.

Porém, numa reflexão mais sincera, quase todos concordarão que o pe-ríodo natalício está demasiado “mundanizado”. O génio dos mercadores do nosso tempo procurou usurpar o espírito do Natal e parece, de verdade, tê-lo conseguido.

Sabedores de que o Homem já foi à Lua e que estará quase a descodificar o DNA humano, sabedores de que os computadores perseguem objectivos de uma produtividade crescente, poucos parecem reunir a capacidade de entusiasmo por coisas simples ou repetidas.

No nosso tempo e no nosso lugar, neste período em particular, muitos de nós assumirão alguma incapacidade para firmar relações que não sejam fortalecidas por colecções de cor e ruído – correntemente efémeras, pelo efeito da moda e da publicidade.

á quase ninguém preserva a inocência capaz de assumir um enorme brilho nos olhos perante o fascínio de uma novidade simples, como era, afinal, a representada em Macondo pelo gelo.




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