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O equilíbrio mais que difícil

Dar e receber – o difícil e desejável equilíbrio… Do meu observatório, construído num espaço virtual e privilegiado dentro de mim, onde me vejo e vejo os outros, constato a penosa tarefa do ser humano na disputa quotidiana pelo equilíbrio entre dar e receber…

N/D
24 Dez 2004

Dar e receber são faces da mesma moeda. Mas há seres humanos que apostam sempre na mesma face…

Há os que sabem apenas receber. E quanto mais recebem, mais se julgam no direito de receber, ao ponto de nunca ficarem satisfeitos, sentindo que é sempre insuficiente qualquer dádiva que lhes acontece.

Há pessoas que sugam do próximo toda a energia, não se dando conta da espoliação que causam na auto-estima do outro.

Este tipo de pessoa, centra em si própria o universo e espera dos outros toda a disponibilidade e atenção, supondo que é justo, merecido e natural. Mas isso é o que ela julga, ilusoriamente.

Esta pessoa, egocêntrica, dificilmente se sentirá feliz e bem com ela própria, por muito que receba. E não se sentirá feliz porque não sabe ou não é capaz de dar, não lhe ocorrendo que existem no universo regras sagradas de troca e partilha que é preciso aprender a respeitar.

Enquanto essas regras não forem compreendidas, o sentimento constante de insatisfação é o único que caberá no seu espaço interior.

E é este sentimento que minará também gradualmente toda a sua potencialidade de auto conhecimento, traduzindo-se na prática por uma séria dificuldade na relação saudável com os outros.

Existe um segundo tipo de pessoas – aquelas que só dão e se dão e, porque não sabem, recusam receber, desenvolvendo um sentimento de não merecimento de qualquer dádiva.

À primeira vista, estas pessoas poderão sentir-se ou parecer mais felizes do que as outras, mas é uma ilusão que o tempo sempre se encarrega de desfazer. A pessoa que só sabe dar, é aquela que tem sérias dificuldades em gerir a sua frágil auto-estima, e possui medos escondidos que resultam em insegurança.

Para não ter de se confrontar com as suas necessidades reais e na tentativa de prevenir o sofrimento, evita pensar em si própria, dedicando-se aos outros (vivendo muitas vezes a sua vida) e oferecendo toda a sua disponibilidade e capacidade de amar, colocando-se sempre em último lugar.

Aparentemente, sente-se bem a dar sem limites ou condições, de forma estóica ou altruísta. Mas, a pessoa que assim age normalmente, não consegue encontrar o equilíbrio. E para evitar o vazio dentro de si, engana-se a si própria, preenchendo a sua vida com a dos outros.

Muitas vezes, o sentimento que cresce dentro deste tipo de pes-soas é o de ser vítima, por ser incapaz de se atribuir valor suficiente para se colocar alguma vez em primeiro lugar.

Ambos os comportamentos são geradores de desequilíbrio quando se apresentam de uma forma constante. Todos nós conhecemos estes dois tipos de pessoas e convivemos diariamente com elas.

Com maior ou menor número de características que os identifiquem, estas pessoas não são capazes de gerir e equilibrar dentro de si o binómio dar e receber. Acabam por vivenciar estas necessidades nos extremos. E o amor próprio tem que ter conta, peso e medida.

Não chegarei ao ponto de afirmar que é possível atingir este equilíbrio em cada momento da vida e para sempre, o mesmo seria dizer que existem seres humanos perfeitos, o que não é verdade.

O que posso constatar, pela minha observação e também pela experiência, é que existem pessoas com plena consciência da importância deste equilíbrio nas suas vidas, sendo este um primeiro passo para o conseguir.

O maior risco que se corre, quando não existe esta consciência, consiste em nos descuidarmos e cairmos nos tais extremos.

Ou perdemos o amor próprio, perdendo também a noção de que estamos a dar demasiado sem receber nada ou, pelo contrário, viciamo-nos no hábito de receber (que é tão bom!), esquecendo que os outros existem e têm as mesmas necessidades.

Qualquer relacionamento, seja ele de que tipo for, familiar, amoroso, de amizade ou outro, está condenado ao fracasso, quando este equilíbrio não faz parte da preocupação de ambas as partes.

O universo mostra-nos constantemente o que acontece quando não respeitamos as leis do equilíbrio…

O difícil equilíbrio entre dar e receber faz-se de pequenas conquistas diárias, através de cedências pessoais, capacidade de amar, coragem de praticar a auto-crítica e, naturalmente, estar atento às necessidades dos que nos rodeiam.

Este, parece-me ser o único caminho para o equilíbrio interior que todos, sem excepção, procuramos e merecemos.

Podemos dar e receber de muitas e variadíssimas formas. Dar e receber, quando é feito com o coração, é gratuito e gratificante. Quem o faz e aprende a fazê-lo espontaneamente, sabe bem a sensação de conforto interior que nos deixa. É como um sono bom e repousante após um longo dia de turbulência.

Tenho uma amiga que diz frequentemente: “Quem dá e se dá, não dá, recebe!” Foi ela, que me levou a apreender a verdadeira dimensão desta premissa e hoje, posso afirmar que a integrei com êxito na minha vida, por tê-la experimentado e comprovado no dia a dia.

Muitas vezes, os caminhos mais fáceis e curtos estão mesmo ao nosso lado, mas nós desafiamos a nossa natureza enveredando por atalhos onde nos perdemos…

Mas só compreenderemos a profunda verdade que aquela premissa encerra, se formos capazes de integrar, com consciência, o equilíbrio entre dar e receber na nossa vida quotidiana.

Vale a pena tentar. Porque resulta!




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