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Pobreza envergonhada

Sempre dediquei parte do meu tempo a trabalhar na área social, em regime de voluntariado, porque sempre me custou aceitar uma Sociedade tão injusta perante aqueles que tão pouco ou nada têm.

N/D
23 Dez 2004

Orgulho-me de pertencer à Sociedade mais rica e mais nobre que existe no Mundo, rica porque está espalhada por todos os continentes e nobre porque está ao serviço dos pobres: a Sociedade de S. Vicente de Paulo.
Em Portugal, existem actualmente mais de mil conferências vicentinas, doze mil setecentos e trinta vicentinos, que por sua vez assistem cerca de cinquenta e cinco mil pessoas desfavorecidas. No entanto, todos os dias, à nossa volta, surgem novas situações de pobreza.

Enganem-se todos quantos julgarão que é apenas nos bairros sociais mais problemáticos que a pobreza existe. Também nos meios aparentemente mais felizes vive um tipo de pobreza para muitos desconhecida, a «pobreza envergonhada».

É dever da Sociedade, e de todos nós que a criamos, estar atentos a este tipo de situções que não poucas vezes se atravessam de forma tão nítida no nosso caminho, e que facilmente ignoramos.

Conversando, há dias, com um casal, ao qual tive acesso através de um telefonema anónimo, alegadamente de uma pessoa próxima, estes solicitavam “a ajuda possível para este Natal”.

Procurando descobrir, de forma tão subtil quanto verdadeira, qual a origem das suas necessidades, foi-me dada a conhecer uma realidade assustadora. Aos 40 anos de idade, o pai daquela família estava desempregado, a mãe, doente, impedida de trabalhar, os seus três filhos menores a estudar em graus de ensino diferentes.

Uma dívida, em forma de empréstimo bancário para compra do apartamento onde residem, paira sobre as suas vidas como uma permanente nuvem negra.
“Se abrir o frigorífico, tenho apenas duas garrafas de água”.

Com lágrimas nos olhos, e transmitindo-me quase o mesmo sentimento, a mãe desta família, uma jovem de pouco mais de 35 anos de idade, licenciada, abalou por completo as concepções prévias que tinha sobre pobreza. Melhor, à concepção de pobreza desde sempre adjacente ao meu trabalho, não poderei mais esquecer que existe, agora, uma nova forma de com ela lidar, a “pobreza envergonhada”.

É esta “pobreza envergonhada”, criada por uma Sociedade Moderna, mas ferida pelo drama do desemprego, ou da doença prolongada, que nos obriga a estar atentos a todos aqueles que já foram felizes mas que, pelas contrariedades da vida, hoje, esperam por nós e contam com toda a nossa ajuda.




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