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Contra a espiral da melancolia

Foi bom ter passado algum tempo no mosteiro de Taizé montado em Lisboa: os trabalhos, a oração, os belíssimos cantos dos monges, uma refeição austera, um silêncio criador, um diálogo sereno.

N/D
23 Dez 2004

E os jovens voluntários, de variadíssimos países, no trabalho discreto de separar textos, preparar esquemas, contactar países e famílias, informar sobre mapas, programas, antecipar uma infinidade de pormenores que vão permitir a cerca de 40 000 jovens viver Taizé em Portugal, nos seus espaços significativos do passado e do futuro.

Uma pacificante experiência de fraternidade, partilha, oração e paz.

Faz bem, no fervilhar de palavras que se sucedem à dissolução do Parlamento e demissão do Governo, ter disponibilidade para ouvir e proclamar gestos de estímulo. (A esperança dos profetas nunca foi proclamada em momentos confortáveis).

Não podemos passar sem sinais de um outro universo para além do que nos toca e por vezes sufoca o quotidiano.

Com os necessários descontos que sempre se dá ao palavreado eleitoral, não se pode subvalorizar este momento, mas entendê-lo dentro de um conjunto de sintomas que porventura na política concreta tiveram a sua explosão mais visível.

Os Bispos portugueses, em nota recente, sugerem que os problemas do país «não se resumem à presente crise política. Esta é talvez o seu efeito e um dos seus sintomas».

O Natal, conjugado com outros sinais, convida-nos a ultrapassar as armadilhas do fatalismo e do desânimo e olhar o país com um reacendimento de entusiasmo como o que veio ao de cima no passado Verão com um acontecimento desportivo de alcance, mas claramente insuficiente para oferecer a Portugal as últimas razões de estima.

A presença de Taizé é uma afirmação de juventude, a recusa da “espiral da melancolia e da passividade”, a confiança nas novas gerações. Isso já se tem feito sentir na preparação deste encontro.

A comunidade vinda de França está impressionada com os jovens e as famílias portuguesas pela forma sábia e generosa como acolhem esta proposta. Nem um dos peregrinos da Europa irá dormir num salão ou num pavilhão de recurso.

Todos ficam em famílias, com uma nota de deslumbrante disponibilidade dos mais pobres.

Pulido Valente diz que Portugal tem muitas desgraças e poucos Eças para as contar. Acho o contrário. Faltam narradores do maravilhoso que acontece entre nós.




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