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Para um Natal diferente

Terras do Homem» informa que mais de 500 idosos e deficientes que vivem em lares residenciais dos concelhos do Vale do Homem não passarão o Natal com as suas famílias.

N/D
22 Dez 2004

Para eles, o Natal «é talvez o dia mais triste do ano».
Isto para falar de uma realidade muito próxima de nós, que tem a ver com os concelhos de Vila Verde, Amares e Terras do Bouro. Em Braga, Guimarães e outras cidades do nosso Minho não é certamente diferente, a não ser no facto de o número aumentar ainda mais em proporção.

Os votos que se formulam de «Boas Festas de Natal» não passam, em bastantes casos, de mera rotina social. Fora do que se diz nos cartões, continua um coração bastante frio e distante.

Pessoalmente, desde que há cerca de 30 anos vivi uma «Noite de Natal» antecipada com deficientes físicos, nas instalações da que agora é «Escola Secundária D. Luís de Castro», mas que, na ocasião, tinha outra finalidade educativa e era dirigida por essa mulher extraordinária que se chamava Susana Lagrifa, o Natal passou a ser diferente.

Senti que sem uma entrega aos mais desfavorecidos e carenciados, a noite de Natal sabe a pouco. Pode haver a mesa mais recheada e requintada, mas faltará sempre a iguaria que realmente sacia e dá plenitude de sentido à reunião de família.

Essa iguaria tem o sabor da «fresta» que conseguirmos abrir no nosso coração para que os outros tenham a primazia do nosso acolhimento, serviço e entrega amorosa.
Este ano já celebrei o Natal com os deficientes, no passado Domingo, primeiro em eucaristia, e depois em almoço e convívio.

Também já recebi cartões de Boas Festas, de que destacarei 3.

Um, do José Senra, de Paredes, e da sua mulher Helena, ambos defi-cientes e com problemas graves de saúde, mas que colocam o espírito de Natal acima dos seus queixumes e ainda encontram coragem para transmitir ânimo e coragem aos outros.

O José Senra, há muito em cadeira de rodas, tem a forte ameaça de ter de amputar as duas pernas, pois a medicina já não encontra outra maneira de lhe minorar as dores. Não pôde estar presente no encontro de Natal dos deficientes, mas enviou uma carta comovedora e cheia de esperança que me pediu para ler durante o convívio.

Os seus problemas não lhe diminuíram a capacidade de entrega e a alegria de viver. Assim é realmente Natal!

Desde as Marinhas, em Esposende, a Leonor Patrão também mandou Boas Festas, ela que há 42 anos está reduzida a uma cama. Nem numa cadeira de rodas se pode sentar e ser deslocada.

Escreve-me: «Para mim é sempre o mesmo. Até é quando sofro mais, e estou a ficar muito cansada. Os ossos todos doem, pois já fez 42 anos que estou nesta cama, paralítica. Mas seja tudo por amor do Senhor. Eu tudo Lhe dou».

E eu acrescentaria que a Leonor dá imenso a quem não esteja completamente embotado de sentimentos. A sua coragem, espírito de aceitação e imolação, interpelam-nos vivamente a que celebremos um Natal diferente.

De Jersey, na Inglaterra, a Melissa, uma menina de 10 anos, paralítica, e que já fez 11 operações, também não se esqueceu de mandar o cartão de Boas Festas. E os leitores não imaginam o rosto desta catraia, apesar de tanto sofrimento!

Quem só vir as fotografias e quem a contactar realmente, não acredita que seja possível ter tantas limitações e tanto sofrimento físico e, todavia, sorrir como ela sorri. Ela testemunha um Natal diferente. E o carinho e entrega dos seus pais, também são testemunho de um Natal diferente.

Felizmente, pude sempre passar o Natal em família, na minha terra natal: Melgaço. Este ano, graças a Deus, também poderei ir para Melgaço e levar meu tio P.e Júlio Vaz, o que, habitualmente, escreve estes textos.

Vai recuperando bem do acidente vascular cerebral e, embora limitado em termos de movimentação física, tem tanta vontade como nós de ir para a terra natal, para lá passar o Natal. E sabendo que interpretaria bastante bem o que ele gostaria de dizer, pediu-me para escrever algo para o jornal.

É também uma forma de agradecer tantos cuidados e carinhos que as pessoas tiveram para com ele. E um pedido de compreensão. Ele, com muito mais tempo para a oração agradecida, a todos recorda diante do único que conhece até onde vai a sinceridade dos nossos sentimentos.

Ele, felizmente, pode estar em família e sentir o afecto que lhe dedicamos. E vai certamente celebrar de maneira diferente a Missa de Natal. Será numa sala da casa, concelebrando, juntamente com o irmão Cónego António e os dois sobrinhos sacerdotes, a que se juntarão os familiares.

Ainda será em cadeira de rodas, mas também é em cadeira de rodas que o Santo Padre o faz.

Para todos, os votos mais sinceros de um Santo Natal. De um Natal diferente, no melhor sentido.




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