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E porque não importar?

«… a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se um bispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um economista. Tudo assim!

N/D
22 Dez 2004

Veja vossa Excelência mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não há um bom estofador…»
Eça de Queirós, Os Maias

E eu continuaria: quer-se um serralheiro, um picheleiro, um marmorista, um carpinteiro, um trolha de primeira, um engenheiro, um contabilista?

Não, não há.

Baseio-me, é claro, nos apelos constantes que leio nos jornais pedindo todo este pessoal. Quer-se um bom podador, bom conhecedor do seu ofício? Não, também não há. Perante esta lástima, não é melhor importar? Não se importa já tanta coisa e há tanto tempo?

Di-lo o mesmo autor, numa outra passagem da obra citada: «Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!».

Esta ideia já me tinha ocorrido aquando da mais recente queda das tílias e de toda a polémica que a rodeou. Já tinha pensado, eu, leiga, mas nascida na aldeia, onde sempre volto quando posso e onde aprendo muito do que sei, que a minha cidade andava mal da poda.

O meu primeiro conto sobre a morte das tílias saiu em 1992 inserido na colectânea “Histórias Doces de Missangas».

Acho que só as crianças das escolas o leram com olhos de bem entendimento: ilustraram-se a preceito transformaram-no em poema publicado neste jornal e dele resultou ainda uma emocionante peça de teatro representada na então Escola Preparatória Frei Bartolomeu dos Mártires em Viana do Castelo.

Depois, quando o vendaval atingiu a Av. Central, outra história escrevi inserida também numa colectânea infanto-juvenil: “Duas mãos um conto. Dois olhos um ponto”. Novamente à baila a morte das belas árvores e a situação dramática em que ficaram as sobreviventes.

Então, e porque a coisa deu polémica, o meu conto foi lido também por adultos. Muitos o apreciaram e, além das falas pessoais e telefonemas recebidos, li artigos solidários neste jornal.

Mas também li a chacota, a ironia solere a morte das “tílinhas coitadinhas”, a alusão às “velhas da sapata” e aos “velhos do Restelo”. Ossos do ofício de quem escreve. Nada me perturbou ou causou mossa. “A asneira é livre”, como dizia o meu querido professor de grego Dr. António Freire.

Nesta última derrocada de árvores provocada pelos temporais, muitos doutos se pronunciaram nomeando as diversas barbaridades que contra elas se vêm cometendo, entre as quais, a poda para alegria desta bracarense-vilaverdense de Escariz S. Martinho que, afinal, teria alguma razão: as árvores não andavam a ser bem podadas e, muitas das vezes, fora de época.

E foi assim que me ocorreu esta história da importação. Recordo o quanto me maravilhei em França, no Jardim das Tulheiras, onde todas ou quase todas as árvores são tílias e, suponho estão de boa saúde.

Até que importar um podador francês tinha a sua piada! Mas de repente ocorreu-me o genuíno, a mão-de-obra nacional, aqui tão perto de nós, em Viana do Castelo.

Daquela avenida esplendorosa à beira-rio nunca se deu pela falta de nenhuma tília. E são tão bonitas! Somente no Sábado, dia quatro do corrente mês, voltei à Av. Central depois da nova poda. E não me dá para achar que ainda não acertaram?

Acho-as altas e, portanto, sujeitas à implacabilidade dos ventos portes a quem não foi ensinada a comiseração. Esta forma de cortar os ramos laterais e “acharutar” as árvores, obrigando-as a estenderem-se em altura, não me parece salutar.

Não podemos esquecer que as suas raízes são deficitárias por causa da escassez de terreno em largura e profundidade.

Então, podá-las mais baixas e permitir-lhes que se alarguem, parece-me que seria dar-lhes mais solidez e estabilidade.

Eu sei que estas pobre árvores há muito que andam na escola, há muito que lhes fazem lavagens ao cérebro com conselhos e reprimendas, ensinando-lhes a razoabilidade dos tempos modernos, o esquecimento das antiguidades românticas e patéticas, convencendo-as que as ridículas radículas que perderam lhes não fazem falta nenhuma.

Mostram-lhes como a Av. agora é bela com um excelente parque, infantil, um tablado para qualquer espectáculo, mesmo político e, sobretudo, o Fast-Food que precisa de ar e sol, de ver e ser visto, sem árvores-palhaços a tapá-lo.

Repetem-lhes mil vezes que esqueçam a ribaldaria do Café Avenida onde os estudantes se juntavam aos magotes.

Até estudavam, mas bebiam apenas café e pirolitos, já que não conheciam a parafernália moderna nem havia dinheiro para luxos.

Hoje estamos no século XXI, tempo de comida substancial, daquela que enche o estômago, pesa na balança e comprime o coração, mas é prática, moderna e… «morra Marta, morra farta!».

Cheias de humildade, as tílias, foram dizendo «amen, desculpem, nós afastámo-nos, nós encolhem–nos, nós acomodámo-nos…». ao que a gente não se habitua neste mundo! Ah!

Valentes gigantes como vós lutastes e sofrestes e resististes!
Hoje cá continuam muitas delas. Se necessário, dêem-lhes mais oportunidades.
Daí esta achega que aqui deixo.

Se não for pertinente, esqueçam e perdoem. Arranjei maneira de aliviar e tranquilizar a minha consciência.




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