Fotografia:
810. Meu caro Leitor:

1Invariavelmente, cada ano o Natal começa cada vez mais cedo.

N/D
22 Dez 2004

Nas montras, nas ruas, nos centros comerciais, que não no calendário. E no festival de luzes multicores nas varandas, nos quintais enfeitando pinheiros, pais-natal, chaminés de olaria!
Até no casebre distante e pobre há lugar a uma mangueira colorida, mesmo que made in China!

Mormente, ele começa cada vez mais cedo na pressa das pessoas, sobraçando embrulhos, promessas, ilusões e no pasmo das crianças de narizito esborrachado na montra de brinquedos!

Há muito, caro Leitor, que as televisões, rádios, jornais, revistas, montras e bocas de música apelam ao gasto, à competição! E a mensagem passa depressa, embrulhada em papel de lustro, como símbolo de encantamento e de magia!

E expressa na mítica figura dum pai natal feito à imagem da superfluidade e da utopia! E bem na lógica de um tempo hedonista, materialista e consumista que é o que vivemos e nos arrasta para um Natal coisificado, profano, de plástico!

DESCARTÁVEL!

2. Porém, meu Amigo, este não é o meu Natal! O Natal da minha infância que chegava só na véspera ou, quando muito, dois ou três dias antes!

E vinha no bacalhau com batatas, na aletria, nos mexidos, nas rabanadas, nos pinhões e no rapa! E, às vezes, num chocolatezito, numa mão de figos, num bolso de rebuçados ou num brinquedo de madeira, assolapado na botifarra, à lareira!

Sobretudo, nas fumarolas que das chaminés, na tarde serena e plasmada, se evolavam cedo, a anunciar, nos panelões, o rugido dos elementos da grande ceia, na reunião da família, à volta da mesa e na seroada onde o rapa, tira, deixa, põe fazia o gozo e gáudio da canalhada!

E, depois, a missa do galo, à meia-noite, celebrada na mítica visão do Presépio movimentado no canto superior direito do altar-mor e o beijo doce ao Menino punham um tom de ternura e verdade nessa Noite de Luz!

Este, sim, era, seguramente, um Natal diferente!

Há dias, caro Leitor, num dos maiores centros comerciais do norte do país, a rebentar de gente, como formigas videiras num frenesim medonho, carregando embrulhos e pressas, fiz a mim próprio esta pergunta:

– Que Natal irá no coração desta gente?

Pelo que via, sentia e pressentia a sua preocupação maior era chegar ao presente, compor o embrulho, embrulhar o sonho! Comprar um natal de plástico, descartável! E muito longe do Natal do Menino Jesus – símbolo máximo da Simplicidade, Humildade, Generosidade e Verdade!

E, depois, ainda me assaltou esta crua e dura realidade: enquanto o consumismo consegue, facilmente, passar e vender a mensagem do seu natal, a Igreja tem de lutar muito para fazer crer na Verdade e Beleza do seu Natal! Do verdadeiro, do único Natal!
Termino, meu Amigo, com o belo poema de A. Gedeão sobre o Dia de Natal!

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de amar com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – que padecem, de lhes darmos coragem para poderem continuar e acatar a sua miséria, de perdoar aos nossos inimigos,
mesmo aos que não merecem, de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Um Bom Natal e até de hoje a oito!




Notícias relacionadas


Scroll Up