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Quem tramou Santana?

O verdadeiro terramoto político que abalou o país nos últimos tempos merece aqui uma atenção especial, não só pela sua importância política, mas também pela sua importância económico-social.

N/D
21 Dez 2004

Ora depois de tanto suspense em Julho deste mesmo ano, decide o Sr. Presidente da República convidar Pedro Santana Lopes para formar governo, por verificar que existia uma maioria parlamentar que permitia tal situação.
O líder do maior partido com representação na Assembleia da República forma então um governo de coligação, sustentado pela tal maioria parlamentar, iniciando aí as suas funções de primeiro-ministro de Portugal.

Durante estes quatros meses é inegável que o governo de Santana viveu conturbados momentos, com problemas quer a nível governamental, quer a nível da vivência interna do maior partido da coligação.

Este último será, por ventura o ponto que mais confusão me faz… pois se há partido onde Santana tem de olhar sempre para trás é o PSD! Vicissitudes de uma actividade e conjuntura política que ultrapassa a percepção de muitos portugueses.

A equipe governamental de Santana não era fabulosa no que diz respeito ao curriculum dos ministros, mas era um quadro governamental que embora revelasse algumas falhas, tinha naqueles que podemos chamar de ministérios nucleares pessoas de elevado valor intelectual e profissional que corresponderam perfeitamente às exigências da situação do País.

Podemos usar como exemplo o ministro Bagão Félix que se revelou um excelente ministro das Finanças, depois de já ter “dado cartas” na pasta da Segurança Social.

Julgo que os requisitos fundamentais para a continuidade da implementação da estratégia política definida por Durão Barroso e Paulo Portas estavam perfeitamente reunidos.

Os tempos piores já tinham passado e entravamos numa época que se adivinhava de recuperação económica, com indicadores internos e externos que nos levavam a pensar que a tão anunciada retoma estava a chegar.

Os “casos” do governo de Santana não se prenderam com aspectos de significativa importância estratégica, mas sim de relevância política, ou seja, com a ênfase que os políticos e a imprensa lhes entenderam atribuir.

De facto há ali uma série de episódios tristes e de lamentar que seriam perfeitamente evitáveis se Santana tivesse numa primeira análise “mão” no PSD e numa segunda análise “mão” do Governo.

Não digo que o primeiro-ministro tenha perdido o controlo de ambos, digo antes que não olhou vezes suficientes para trás e como ele próprio diz foi levando umas facaditas aqui e outras ali.

É então importante referir que desde logo os problemas governamentais de Santana não foram prejudiciais ao País, mas antes a ele próprio e ao governo que liderava. Em termos de estratégia global, nacional e internacional, o percurso estava a ser feito e bem feito.

Perante este cenário, poderíamos questionar porque razão dissolveu Jorge Sampaio a Assembleia da República provocando eleições antecipadas. Para não me alongar muito vou apenas dizer que foi o timing que o Presidente (supostamente de todos os portugueses) entendeu perfeito para provocar uma crise institucional e política que numa primeira análise beneficia o Partido que colocou Sampaio em Belém.

Veremos se os factos vão ser tal qual como o PR pensou.

Os argumentos apresentados por Jorge Sampaio para a dissolução da AR, mais não são mais do que uma fuga às verdadeiras razões que o levaram a tomar tal atitude. Espero que a história não nos venha a provar no futuro que assistimos impávidos e serenos a um “golpe de estado” institucional promovido pelo próprio Presidente da República…. espero que não!

A questão que surgiu logo de imediato foi se a coligação deveria persistir ou não, ou seja, se deveríamos ter uma coligação pré-eleitoral, pós-eleitoral ou pura e simplesmente não ter.

Desde o primeiro minuto entendi que os partidos deveriam concorrer separados a estas eleições legislativas.

Perante os factos e no contexto em que o país se encontrava, entendi desde logo que seria necessário separar as águas, clarificar ideias e “obrigar” ambos os partidos a elaborar programas de governo autónomos e independentes, para que se possam apresentar aos Portugueses dando-lhes a oportunidade de escolherem quem querem a governar, com que influências e com que preponderância, isto é, deixar os portugueses escolherem claramente se querem a coligação no governo e qual o peso que cada partido deve ter na textura governamental.

É o mais elementar exercício de democracia, deixar os eleitores escolherem tudo!
Quanto ao acordo assinado entre os dois partidos, não posso deixar de referir aqui que é de uma honestidade política admirável.

Peço ao caro leitor que faça um pequeno exercício de raciocínio e estou certo que encontraria razões mais que válidas para que este acordo não fosse assinado e os partidos concorressem separados, dizendo apenas que agiriam de acordo com os resultados eleitorais.

Desde logo e como único exemplo que aponto posso lembrar que para o CDS/PP, tendo sido o elemento de estabilidade no seio do governo, tendo indicado ministros cujo bom desempenho está à vista de todos, interessaria concorrer sozinho, descolando-se do PSD, relembrando aos portugueses o papel importante e positivo que teve no governo de Portugal, podendo assim obter um resultado bom que, perante uma eventual vitória do PS, lhe garantiria uma representatividade parlamentar de peso.

Este acordo não é só pioneiro em Portugal, é um passo em frente que ambos os partidos dão na jovem democracia portuguesa. É um sinal de transparência e honestidade política singular e encorajador…

Esperemos tranquilamente pelas eleições legislativas para verificar se a memória dos portugueses é tão curta como dizem… quero crer que não!

P.S. A todos os leitores quero desejar um Feliz Natal e um Próspero 2005!




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